Chega! Vamos falar de futebol

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado terça-feira, 28 de setembro de 2004 as 11:46, por: cdb

Estou pensando seriamente em solicitar uma entrevista à professora Maria da Conceição Tavares, para analisarmos o futuro do futebol brasileiro. A julgar pela imagem futebolística que ela usou no artigo Despedida do debate macroeconômico, publicado domingo passado (19) na Folha de S.Paulo, a economista entende mais de futebol do que os jornalistas e analistas econômicos entendem de economia. Já estou até imaginando como seria:

– O que está achando do campeonato brasileiro, professora?

– Uma porcaria. Esses técnicos não entendem p… nenhuma. São todos uns retranqueiros covardes. Não têm jogadas de ataque ensaiadas. Os jogadores são uns idiotas. Só sabem dar bico nos juros, quer dizer, na bola quando a defesa está pressionada. Quando conseguem sair do sufoco, ao invés de puxar o contra-ataque, o meio de campo prende a bola e amarra o jogo.

– Mas o time está ganhando desse jeito. Em time que está ganhando não se mexe.

– Bobagem. Ninguém ganha campeonato com um futebol medíocre desses. Quem vai patrocinar um time que só sabe jogar na retranca? No primeiro tropeço, a galera vai começar a vaiar e pedir a cabeça do técnico. Os jogadores vão brigar em campo e não vai ter ninguém para colocar ordem na casa, porque no time só vai ter perna-de-pau. O pior, é que a imprensa esportiva só sabe puxar o saco desses idiotas, com vícios ortodoxos e explicações convencionais, porque não resiste ao narcisismo de uma sociedade do espetáculo.

Na sociedade do espetáculo, as mentiras são reproduzidas até tornarem-se postulados. Por ignorância ou para agradar a clientela, compram-se versões oficiais por atacado e despejam-se, no varejo da opinião pública, certezas absolutas, que ignoram o contraditório, desqualificam os interlocutores e interditam o debate. Os juros sempre sobem porque tinham de subir, o superávit sempre aumenta porque tinha de aumentar, o câmbio flutua porque tem de flutuar, o fluxo de capitais é livre porque tem de ser assim e o país não cresce mais porque não pode crescer sem descontrolar a inflação.

As coisas são assim porque esse é o sinal esperado pelo mercado, que nunca pode ser contrariado, nunca pode ser enfrentado, nunca pode ser questionado. É nisso que todos acreditam, porque foram induzidos a acreditar pelos propagadores do fundamentalismo econômico. Até o presidente da República acredita que pode comparar a economia do País à economia doméstica, desconsiderando que o cidadão comum não tem como interferir na equação macroeconômica, mas o governo de uma Nação soberana tem – e deve interferir para evitar que os mais fracos sejam espoliados pelos mais fortes no jogo de cartas viciadas do mercado.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse esta semana que todo mundo neste País acha que entende de economia, como acha que entende de saúde e futebol. Ele também acha que tem a receita para fazer os gols, o remédio para tirar as dores e a fórmula para desencalacrar a economia do País. No caso da economia, deixou claro que o caminho é apoiar a persistência da equipe econômica, que produziu resultados “acima de todas as expectativas”, a despeito das advertências pessimistas. Talvez ele ignore que apoiar a persistência da equipe econômica seja impedir o País de crescer acima da média de 4% nos próximos três ou quatro anos. Não é possível que ele considere esse o espetáculo do crescimento anunciado.

O presidente parece ignorar, também, o que o governo faz com a poupança do superávit primário. Vejam a justificativa dele para a decisão de não gastar R$ 4,2 bilhões do excesso de arrecadação deste ano: “Então, ao invés de ficar jogando dinheiro pelo ladrão, como habitualmente se faz atendendo emendas, fazendo qualquer coisa, o que nós fizemos? Se nós temos essa folga e ela vem surgindo a partir do mês de junho para cá, ao invés de jogar dinheiro fora, vamos aumentar o superávit que, pelo menos nós diminuímos a dívida que nós temos. Vamos pagar alg