Cercas na UE não detêm imigrantes, diz AI

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Publicado terça-feira, 17 de novembro de 2015 as 12:30, por: cdb

Por Redação, com DW – de Bruxelas:

A Anistia Internacional (AI) afirmou nesta terça-feira que a construção de cercas e outros tipos de controle nas fronteiras de alguns países da União Europeia (UE) alimentam “uma série de abusos de direitos humanos” e não contribuem para deter o fluxo de imigrantes.

Num relatório sobre o tema divulgado em Bruxelas, a organização analisou os efeitos das novas cercas, especialmente a construída na fronteira da Hungria com a Sérvia, e o papel de gatekeeper de países como a Turquia e Marrocos.

Organização denuncia abusos de direitos humanos como consequência de controles fronteiriços estabelecidos por alguns países europeus
Organização denuncia abusos de direitos humanos como consequência de controles fronteiriços estabelecidos por alguns países europeus

– A expansão de cercas ao longo das fronteiras da Europa apenas aprofundou violações de direitos e agravou os desafios de administrar o fluxo de refugiados de maneira humana e ordenada – afirmou John Dalhuisen, diretor da AI para Europa e Ásia Central.

Mais de 235 quilômetros de cerca já foram construídos na Europa neste ano, sendo que 175 quilômetros estão localizados na fronteira da Sérvia com a Hungria.

A organização denunciou ainda que refugiados que tentaram entrar na Grécia, Bulgária e Espanha foram expulsos por autoridades fronteiriças sem acesso ao procedimento de asilo ou chance de apelar o retorno. Dessa maneira, leis internacionais foram desrespeitadas, afirmou.

– Essa expulsão é acompanhada, com frequência, de violência e coloca a vida das pessoas em risco – afirmou a Anistia Internacional.

O relatório conclui que as medidas que visavam controlar o fluxo migratório, além de negar o acesso ao asilo, expõem refugiados e imigrantes a maus-tratos e forçam as pessoas a buscar alternativas que ameaçam a vida, como as travessias marítimas.

Mais de 760 mil refugiados já chegaram à UE neste ano, a maioria de origem síria e tendo chegado pela Grécia. Mais de 3,4 mil morreram na tentativa de cruzar o Mediterrâneo em 2015.

– A crise de refugiados representa um grande desafio para a UE, mas está longe de ser uma ameaça existencial. A União Europeia precisa responder não com medo e cercas, mas com a melhor tradição dos valores que pretende prezar – disse Dalhuisen.

Infiltrados

Atentados em Paris despertam medo de que terroristas se infiltrem em meio a migrantes que chegam à Europa
Atentados em Paris despertam medo de que terroristas se infiltrem em meio a migrantes que chegam à Europa

Após os recentes ataques em Paris, muitos alemães temem que terroristas estejam infiltrados entre os refugiados que chegam à Europa. Nas redes sociais, especula-se se um ou mais dos assassinos da capital francesa viajaram pela Alemanha até a França.

Especialistas em segurança não excluem a possibilidade de uma “infiltração” de terroristas, mas acreditam que a probabilidade de que eles tenham usado a jornada árdua e perigosa através do Mediterrâneo e da rota dos Bálcãs seja baixa.

Um porta-voz do Ministério do Interior não quis ou não pôde dizer na segunda-feira em Berlim se havia esse tipo de conhecimento nas investigações e se referiu às autoridades francesas para todos os esclarecimentos.

O Ministro da Justiça alemão, Heiko Maas, disse pela manhã que havia apenas uma relação entre o terrorismo e os refugiados: os imigrantes fogem das mesmas pessoas na Síria que são responsáveis pelos ataques em Paris. Portanto, para ele, seria totalmente irresponsável conectá-los sem provas.

Vítimas do EI

Um pouco mais tarde, a França divulgou que as impressões digitais de um dos suicidas dos ataques batiam com as registradas por um homem que tinha entrado na União Europeia (UE) em outubro, através da Grécia, como refugiado com passaporte sírio.

Nessa difícil situação, políticos de todos os partidos representados no Parlamento alemão, do governo e da oposição, lutam para confrontar a desconfiança generalizada sobre os refugiados.

As vítimas de Paris estão ligadas aos refugiados, porque ambos são vítimas do Estado Islâmico (EI), disse o vice-chanceler federal, Sigmar Gabriel (SPD). A oposição do Partido Verde considerou infame colocar nas costas dos refugiados um debate político sobre as consequências dos ataques.

Políticos de diferentes partidos criticaram duramente, no fim de semana, o ministro das Finanças da Baviera, Markus Söder (CSU), por ter dito: “Paris muda tudo”, juntamente com a exigência de que a imigração descontrolada fosse freada por todos os meios possíveis. O chefe de Söder, o primeiro-ministro da Baviera, Horst Seehofer, manteve-se distante do debate. Para ele, é preciso diferenciar as coisas e separar os assuntos “refugiados” e “terrorismo”: “Caso contrário, haverá mais polarização dentro da sociedade”, disse Seehofer em Munique na segunda-feira.

Cotas em vez de caos

O vice-chanceler federal alemão vai ainda mais longe. Para Gabriel, a sentença “Paris muda tudo” foi a frase mais equivocada que se poderia dizer. Nada vai mudar “no nosso jeito de vivermos juntos”, disse.

Olhando para a política de refugiados, Gabriel diz que não haveria restrição ao direito de asilo na Alemanha. Do ponto de vista do SPD, é preciso, primeiro, fazer todos os esforços para proteger melhor as fronteiras externas da UE e, em seguida, no próximo ano, “realizar uma espécie de recomeço na política de refugiados”.

Isso incluiria substituir a imigração “caótica” por um movimento organizado, à base de cotas e sem contrabandistas. A chanceler federal, Angela Merkel, já havia anunciado um “plano” semelhante.