Cenário politico tende a manter dólar volátil até final de 2002

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Publicado quarta-feira, 29 de agosto de 2001 as 20:35, por: cdb

O câmbio deve se manter volátil no Brasil até o fim de 2002, pressionado tanto pelo cenário político, que tende a ficar indefinido até o segundo turno das eleições presidenciais, quanto pela crise argentina, que não dá mostras de arrefecimento. A previsão é do economista José Roberto Mendonça de Barros, ex-secretário executivo da Camex (Câmara de Comércio Exterior) e ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda.

“As incertezas só fazem aumentar a procura por hedge (proteção) cambial”, disse o sócio da consultoria MB Associados. As operações de hedging afetam diretamente a liquidez no mercado de câmbio.

Ao fazer uma análise sobre o período remanescente do governo Fernando Henrique Cardoso, em palestra organizada pela Câmara de Comércio Brasil Canadá, Mendonça de Barros também alertou os empresários para o fato de que o preço da eletricidade para a indústria não deverá recuar, mesmo com o fim do racionamento. A expectativa é de que nos próximos dias a tarifa suba para cerca de US$ 40/Mw/hora ante os US$ 25 Mw/h cobrados até então. A crise energética tem sido usada como argumento para a alta da tarifa industrial.

Mendonça de Barros fez uma relação direta entre a crise de energia e as “mudanças qualitativas” no cenário político. Ele destacou que o fato de a população ter culpado o governo pela crise adiantou o debate sucessório e abriu a possibilidade de haver dois candidatos de oposição (o candidato do PT contra Itamar Franco ou Ciro Gomes) disputando o segundo turno. “Todos os candidatos de oposição cresceram com a crise e começaram a discutir seus programas, embora alguns sejam inexistentes, como o do governador Anthony Garotinho, do Rio. Mas o fato é que as eleições serão apertadas”, disse.

O ex-secretário de Política Econômica também criticou o aumento da taxa básica de juros, para 19%, promovido pelo Copom (Comitê de Política Monetária) em julho. Para Mendonça de Barros, a autoridade monetária se equivocou ao julgar que, com o racionamento, a produção cairia mais rapidamente que a demanda, fator que teria motivado a alta dos juros para evitar impacto na inflação. O fato, segundo ele, é que a população apertou o cinto e a demanda caiu.

Ao mesmo tempo, a indústria acelerou sua produção em maio, adiantando-se para reduzir o impacto do racionamento. “A oferta se manteve, mas faltou consumo. O aumento dos juros foi uma óbvia overdose”, disparou.