Casa Grande: um espelho do Brasil

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Publicado segunda-feira, 27 de abril de 2015 as 15:17, por: cdb
“Casa Grande“, de Fellipe Gamarano Barbosa
“Casa Grande“, de Fellipe Gamarano Barbosa

 

Dos meus sete aos quinze anos estudei no Colégio de São Bento. Incrustado no centro histórico do Rio de Janeiro, junto ao Mosteiro de São Bento, o tradicional colégio possui uma característica única na cidade: apenas meninos podem estudar lá. Além, claro, de sua refinada educação clássica organizada pelos beneditinos – tive que ler a Odisseia e a Ilíada de Homero aos quatorze anos, o que foi realmente muito útil em minha vida, particularmente para saber desde o início que Heitor e Aquiles morreriam no fim de Tróia para o desespero de algumas incautas fãs de Brad Pitt e Eric Bana.

Ironias à parte, digo isso pois as melhores lembranças daquele período vieram na minha mente durante a estreia de Casa Grande. Escrito e dirigido por Fellipe Gamarano Barbosa – também ex-aluno de lá – o filme se passa em grande parte no CSB e traz como pano de fundo a vida e os dilemas extraordinários que apenas um jovem de 17 anos poderia ter.

O protagonista Jean, vivido por Thales Cavalcanti, é o filho de uma família da alta burguesia carioca. Quando uma crise financeira atinge seu pai, interpretado por Marcelo Novaes, Jean é obrigado a ter mais contato com a realidade. Primeiro com a demissão do motorista e amigo Severino o que o obriga a andar de ônibus. Em seguida ao conhecer no ônibus Luiza, uma estudante de escola pública “filha de mulata com japonês”.

Aliás, está aí o maior mérito de Casa Grande. Mais do que uma homenagem ao colégio e a todos que por lá passaram, Fellipe Barbosa conseguiu fazer um filme que retrata fielmente a assimetria social e o consequente conflito de classes de uma cidade como o Rio de Janeiro.

Na coadjuvante Luiza encontramos o contraponto popular e corajoso ao discurso elitista dos pais do protagonista. O auge dessa disputa de narrativas se dá em torno do tema das cotas nas universidades e da questão racial ainda mal resolvida no país. No meio de tudo isso está Jean ainda em processo de observação e compreensão de dois mundos em disputa.

A Casa Grande que serve de cenário principal para o filme fica na Barra da Tijuca. Mas poderia estar em qualquer bairro da Zona Sul do Rio, nos Jardins de São Paulo ou em Boa Viagem no Recife. Os diálogos e os conflitos entre patrões e subalternos do roteiro são mais do que comuns em nosso dia a dia.

Dizem por aí que a melhor forma de se solucionar um problema é identifica-lo, conhece-lo bem e profundamente. Sem dúvida alguma Casa Grande contribui para nosso autoconhecimento, para a percepção de nossos preconceitos cotidianos.

Fellipe Barbosa conseguiu fazer de seu filme um grande espelho do Brasil. E por isso já merece ser considerado o melhor filme brasileiro de 2015.

Theófilo Rodrigues, é cientista político.