Carnaval & Cinzas

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quinta-feira, 27 de fevereiro de 2003 as 20:03, por: cdb

Carnaval significa “festa da carne” e era, em seus primórdios, uma festa religiosa. Às vésperas da Quaresma, diante da perspectiva de passar quarenta dias em abstinência de carne, os cristãos fartavam-se de assados e frituras entre o domingo e a “terça-feira gorda”. Na quarta, revestiam-se de cinzas, evocando que do pó viemos e para o pó retornaremos, e ingressavam no período em que a Igreja celebra a paixão, a morte e a ressurreição de Jesus Cristo.

A modernidade secularizou a cultura e, de certo modo, esvaziou o significado das festas religiosas, hoje apreendido apenas por cristãos vinculados à comunidade eclesial. Com certeza ganhou a autonomia da razão e perdeu a consistência da subjetividade. Trocou-se São Nicolau, que no século V distribuiu sua herança aos pobres, pela figura consumista de Papai Noel; transformou-se o carnaval em festa da carne em outro sentido; e fez-se da Semana Santa um período extra de férias.

Essa reificação dos ritos de passagem torna-se mais evidente nesse momento em que a humanidade enfrenta a crise de paradigmas. Destituído o leninismo da condição de ciência da História, e constatado o fracasso crônico do neoliberalismo nos países da América Latina, da África e da Ásia, ocorre uma emergência espiritual em todo o mundo.

Parafraseando Rimbaud, há uma “gula de Deus”, que favorece o encontro da mística oriental com a doutrina cristã ocidental, introduz a new age e a gnose de Princeton, mas também abre campo aos mercenários da salvação, que pregam de olho na cobiça, convencidos de que “no princípio era a verba” e, se Jesus é o Caminho, pague-se a eles o pedágio…

A Quarta-Feira de Cinzas instiga-nos a refletir sobre esta experiência inelutável: a morte. O processo reificador da modernidade tende a tornar descartáveis também os ritos de passagem que se sobrepõem às esferas religiosas, como o nascimento, o casamento e a morte. Outrora, morria-se em casa e, contra a vontade do poeta, havia choro, vela e fita amarela.

Criança, em Minas, acorri a enterros que eram uma festa, com toda a força paradoxal da expressão. Havia velório e carpideiras, cachaças e empadas, coroas de flores e procissão fúnebre, missa de corpo presente e encomendação no cemitério. Hoje, morre-se quase clandestinamente, e o enterro se faz antes que os amigos possam ser avisados, como se resistíssemos à idéia de que esta vida escapa ao nosso absoluto controle.

A evocação da morte incomoda porque remete ao sentido da vida. Só assume morrer quem imprime à vida um sentido altruísta, capaz de transcender a existência individual. Fora disso, a morte é brutal sonegação da vida. Porém, já não se enfatiza a questão do sentido da vida. Na escola, aprende-se a competir, a ter sucesso, a dominar a ciência, a técnica e o patrimônio cultural de que somos herdeiros. Pois não há disciplina que prepare os alunos para as crises quase inevitáveis da existência: o fracasso profissional, a ruptura afetiva, a doença, a falência, a morte. Socializada a ambição, todas as vezes que o desejo esbarra na frustração, privatiza-se o consolo: o alcoolismo, as drogas, o ressentimento, o lobo que nos devora o coração.

Na Quarta-Feira de Cinzas, a CNBB lança, em todo o Brasil, a Campanha da Fraternidade, neste ano, dedicada ao idoso. Alonga-se o período de vida do brasileiro, mas nem sempre se aprofunda a atenção que ele merece. Idosos são marginalizados, abandonados pelos próprios parentes, desconsiderados pelos equipamentos sociais, vistos como incapazes ou inúteis. Ora, a fé cristã não faz o panegírico da morte, mas proclama o seu fracasso ao centrar seu eixo na ressurreição da carne. Isso significa a recusa de todas as situações de morte, do pecado individual às estruturas sociais que exaltam o capital e humilham a pessoa, incapazes de assegurar a tantos idosos uma vida digna e feliz.

Proclamar que a vida tem a palavra final, inclusive sobre a morte, implica, também, empenhar-se para que os nossos anciãos não sejam precocemente condenados