Cardeal de Boston afirma que delegou casos de abusos sexuais a psicólogos

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Publicado quarta-feira, 8 de maio de 2002 as 22:36, por: cdb

O cardeal norte-americano Bernard Law depôs perante a justiça de seu país, nesta quarta-feira, e declarou que considerava os abusos sexuais cometidos por sacerdotes como uma “patologia psicológica” e que os médicos e os psiquiatras deveriam se encarregar de lidar com as denúncias de pederastia contra sacerdotes.

Law, arcebispo da Arquidioceses de Boston, respondeu às perguntas de advogados na Corte Superior de Suffolk como parte de um processo que o acusa de negligência por permitir que o sacerdote John Geoghan, agora expulso da Igreja, fosse transferido de paróquia em paróquia, mesmo com as acusações de abusos sexuais de menores que pendiam sobre ele.

O advogado das supostas vítimas, Mitchell Garabedian, mostrou-se decepcionado com o testemunho de Law, o qual considerou evasivo. “Ele usou vários de seus discursos padronizados”, disse o advogado. “O cardeal não lembra de conversas que teve com alguns de seus principais assessores, o que acho difícil de acreditar”.

Uma das supostas vítimas de Geoghan, Mark Keane, também não acredita no fato de Law se lembrar de alguns fatos da época e simplesmente se esquecer de outros. “Acho que o cardeal tem algum tipo de amnésia seletiva”, comentou Keane, que acompanhou o depoimento de Law.

Durante a audiência, os advogados perguntaram a Law se, quando foi nomeado arcebispo de Boston, em 1984, sabia que era “impróprio de um sacerdote abusar sexualmente de jovens”. Ele respondeu: “por suposto”.

Também lhe indagaram se “esses abusos sexuais eram algo que tivesse tentado evitar que voltassem a se repetir”, ao que Law respondeu que “sim”.

“Qual era o procedimento nos casos de abuso sexual?”, questionaram os advogados. “Eu considerava uma patologia psicológica, uma doença; e também havia um componente moral”, disse Law. “Era, objetivamente falando, um ato pecaminoso grave e algo com o que se lida ao longo da vida, na relação pessoal com Deus”, continuou.

“No aspecto patológico, como não sou um psiquiatra ou psicólogo, decidi confiar em quem considerava ou tinha razões para considerar que tinham a experiência para avaliar essa patologia”.

Anos anteriores
Os advogados também fizeram perguntas sobre os anos em que Law foi bispo em Springfield e em Cape Girardeau, no estado de Missouri, entre 1973 e 1984. Naquela época, Law recebeu algumas informações sobre sacerdotes que apresentaram condutas não apropriadas com menores.

“Segundo me lembro, os envolvidos nesses casos foram encaminhados a realizar exames psicológicos, a fim de que recebessem tratamento adequado”, disse. O cardeal declarou que houve menos de cinco casos desse tipo de comportamento nesse período e que não era algo “ordinário”.

Os advogados também perguntaram se Law havia consultado outros bispos sobre esses casos. “Sim, mas não conversei com bispo algum fora da diocese sobre como proceder”, respondeu.

Law disse que um sacerdote sobre o qual recebeu uma queixa não está mais ativo e que alguns dos padres com quem conversou sobre o tema ainda seguem na Igreja.

A juíza da Corte Superior, Constance Sweeney, ordenou que a audiência de Law fosse realizada a portas fechadas. Oitenta e seis pessoas estão processando a arquidiocese por supostos abusos sexuais realizados por Geoghan, que está detido após ser condenado, em janeiro, a até 10 anos de prisão por acariciar um rapaz.

Ele também enfrenta acusações por abusos sexuais de menores e se suspeita que Geoghan tenha feito cerca de 200 vítimas ao longo dos anos. Na sexta-feira passada, e mesmo contra a vontade de Law, o conselho financeiro da arquidiocese decidiu recusar um acordo com os 86 autores do processo.

Os advogados da arquidiocese previram que um acordo poderia custar cerca de 30 milhões de dólares à Igreja e o conselho temeu carecer dos recursos econômicos necessários na possibilidade de outros casos aparecerem.

Na segunda-feira, Mitchell Garabedian, advogado das supostas vítimas de Geoghan e um dos negociadores do acordo, di