Carandiru tem recepção modesta em Cannes

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Publicado segunda-feira, 19 de maio de 2003 as 13:27, por: cdb

A primeira exibição de “Carandiru”, o concorrente brasileiro à Palma de Ouro, na noite deste domingo em Cannes, foi recebida com aplausos moderados e até um princípio isolado de vaia.

Vários jornalistas haviam deixado o Grand Théatre Lumière em momentos diferentes do filme — de 2h32 de duração –, mas nada que representasse risco de esvaziar a grande sala de projeção (com cerca de 2.000 lugares). No final das contas, se não pôde ser considerada uma recepção calorosa, não ocorreu nenhum desastre.

Boa parte da platéia inclusive riu em alguns momentos não tão tensos, como no caso das brigas entre as duas mulheres de Majestade (Ailton Graça), Dalva (Maria Luísa Mendonça) e Rosirene (Aida Lerner), e das aparições do travesti Lady Di (Rodrigo Santoro), especialmente na sequência de seu “casamento” com Sem Chance (Gero Camilo).

A longa sequência da rebelião e do massacre dos 111 presos, em 1991, foi acompanhada em absoluto silêncio.

Estão previstas duas outras exibições do filme, uma a partir das 22 horas deste domingo, numa sala bem menor, a Bazin (em torno de 300 lugares). A terceira exibição será na sessão de gala, marcada para esta segunda-feira, a partir das 22h30, também no Lumière.

É esta última que repercute mais na imprensa e nas colunas sociais, já que é aí que comparecem o diretor e o elenco do filme, sempre em trajes black tie, assim como a platéia de convidados.

As críticas de maior peso só deverão estar disponíveis nos jornais na terça-feira, já que a primeira sessão acabou por volta das 21h30.

Mas, para a decisão da Palma de Ouro, o que conta mesmo é a decisão do júri, cujos desígnios são sempre imprevisíveis porque dependem de intensas negociações entre membros não raro muito diferentes entre si. Neste ano, o conselho é presidido pelo diretor Patrice Chéreau, de Intimidade e A Rainha Margot.

Na entrevista coletiva, também nesta segunda a partir das 12h30 (horário de Brasília), estão confirmadas as presenças do diretor Hector Babenco, do médico Drauzio Varela, autor do livro i>Estação Carandiru, em que se baseou o roteiro, além dos atores Rodrigo Santoro, Caio Blat, Aida Lerner e Maria Luísa Mendonça.

Por coincidência, a coletiva do filme brasileiro foi programada para logo depois Dogville, de Lars von Trier.

Uma boa medida da repercussão de Carandiru, aliás, será se os jornalistas que vierem para a coletiva do filme de Von Trier permanecerem no salão de conferências do Palais du Festival depois da saída do diretor dinamarquês e da musa Nicole Kidman, estrela do filme que é considerado a grande sensação deste festival, cuja seleção este ano, no entanto, vem sendo considerada fraca de modo geral.

A vinda do filme brasileiro, em todo caso, é importante por si mesma. Em primeiro lugar, porque representa a volta do Brasil à competição principal em Cannes depois de três anos de ausência — a última vez foi em 2000, quando o competidor brasileiro foi Estorvo, de Ruy Guerra.

Para Babenco, a volta à disputa da Palma de Ouro também é, em si, uma chance de revanche. O diretor argentino-brasileiro já havia concorrido aqui em 1998, com Coração Iluminado, que foi bastante mal-recebido naquele festival.