Candidatura de Ciro se transforma em cabo de guerra entre PT e PSB

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Publicado quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010 as 12:44, por: cdb

Nos bastidores da corrida presidencial, que começa a ganhar velocidade já nos primeiros meses deste ano, o ex-ministro-chefe da Casa Civil e ex-deputado José Dirceu, um dos principais articuladores nacionais do PT, tem buscado soluções para os conflitos internos da base aliada nos Estados onde a candidatura da sua sucessora no cargo, a ministra Dilma Rousseff, não está plenamente consolidada. No Ceará, porém, onde esteve nas últimas 48 horas, Dirceu viu azedar suas relações com o governador Cid Gomes, irmão do deputado Ciro Gomes, pré-candidato à sucessão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Cid não teria gostado da pressão exercida por Dirceu para que o irmão desista o quanto antes das pretenções nacionais e passe a se dedicar à corrida sucessória no Estado de São Paulo, para onde transferiu o título de eleitor no último dia do prazo legal, ano passado. Caso Ciro mantenha a decisão, anunciada nesta quinta-feira, de permanecer candidato, o PT do Ceará poderá romper com Cid e lançar candidato próprio ao Governo do Estado, o que seria um transtorno político considerável para o atual gestor estadual.

Diante do conflito iminente, Cid Gomes alegou não ter vaga na sua agenda para uma reunião com Dirceu e preferiu não conceder a audiência agendada na terça-feira com o ex-ministro, no Palácio Iracema ou na Residência Oficial onde mora. A reunião teria sido pedida por Dirceu à assessoria de Cid por ele se encontrar em Fortaleza para uma entrevista a uma TV local, quando gostaria de aproveitar para uma conversa com o governador.

Dirceu não escondia a irritação com a recursa de Cid Gomes, segundo observadores políticos locais, e teria considerado o tratamento como descortês. Assessores do Palácio do Planalto trataram de colocar panos quentes e, em conversa com o presidente nacional do PSB, o governador pernambucano Eduardo Campos, assessores de Lula teriam minimizado a atuação de Dirceu como negociador do PT.

Ciro candidato

Ciro Gomes, por sua vez, reiterava sua disposição de concorrer ao cargo, apesar dos apelos para que ele se junte à pré-candidata Dilma Rousseff. Ela tem reiterado que gostaria de ter o deputado no seu palanque.

– Gostaria sempre de estar em palanque com ele – afirmou Dilma, na véspera, durante a inauguração de uma obra em Duque de Caxias, no Rio.

Para o parlamentar cearense, “no segundo turno é uma possibilidade muito real, mais do que real, certa. A ministra Dilma tem todas as qualidades, me honra com essa lembrança”. No entanto, o deputado afirmou que nada fará com que ele abra mão de sua candidatura para formar uma chapa com a ministra.

– Nada me fará abrir mão, porque considero um dever moral do PSB apresentar alternativa que valorize o povo brasileiro e proteja o nosso povo, com a lucidez do debate com que a gente possa participar, de uma ameaça de volta ao passado, de uma estagnação, de uma paralisia em relação ao bom momento do presente – afirmou o socialista em entrevista na Câmara dos Deputados.

O resultado das negociações para ter Ciro mais próximo da base aliada foi a redução imediata no nível das críticas ao pré-candidato socialista. Os deputados paulistas Ricardo Berzoini e José Eduardo Cardozo consideram “legítima” a intenção de concorrer à Presidência, embora pensem que Ciro deveria considerar a continuidade do governo Lula termina em apenas uma candidatura: a da ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Roussef.

– O governo sempre respeitou o desejo de Ciro de se candidatar à sucessão do presidente Lula. Achamos que unidos temos mais condições de lutar politicamente – reiterou Berzoini, em conversa com jornalistas.

Cardozo, por sua vez, considera “legítimo o direito de Ciro ser candidato”.

– Mas penso que a avaliação do Lula é correta: quem defende a continuidade do governo deveria estar junto em torno de uma única candidatura, que é a da ministra Dilma – completou Cardozo.

O próprio presidente Lula, no entanto, é o maior interessado em ver Ciro desistir da cena nacional e enfrentar seus adversários no Estado de São Paulo, onde está encastelada a maior parte da oposição ao seu governo, tanto na administração estadual, com José Serra, quanto na capital, com Gilberto Kassab (DEM).

Jader no Senado

Em sua série de viagens pelo país, Dirceu passou o último fim de semana em Belém, na tentativa de convencer o PMDB do deputado Jader Barbalho a se coligar com o PT da governadora do Pará, Ana Júlia Carepa, pré-candidata à reeleição. No Pará, onde petistas e peemedebistas sobem em palanques diferentes, ainda não foi possível unificar os interesses da base aliada, da mesma forma que na Bahia e em Minas Gerais. Jader e Dirceu concordaram que a divisão interna prejudica ambas as legendas e fortalece o principal nome da oposição no Estado, do ex-governador tucano Simão Jatene (2003-2006).

As condições colocadas por Jader para abrir mão da disputar ao governo do Estado foram a indicação do vice de Ana Júlia, e uma vaga para o Senado, para onde pretende voltar após ter sido afastado de forma ruidosa, diante uma série de denúncias de corrupção.