Canal Brasil exibe documentário inédito sobre Rogério Sganzerla e filmes do cineasta

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Publicado quarta-feira, 12 de novembro de 2003 as 22:50, por: cdb

O Canal Brasil exibe neste mês um documentário inédito sobre o ícone do cinema marginal, Rogério Sganzerla. Além do documentário, dirigido por Joel Pizzini, teremos a oportunidade única (e igualmente inédita) de assistir alguns de seus filmes, numa retrospectiva que celebra os 35 anos de carreira do cineasta e de sua obra prima, “O Bandido da Luz Vermelha”.

 

Exibido nessa terça feira pela primeira vez, o filme de Pizzini reúne belas imagens (caseiras inclusive) do cineasta com a família. Depoimentos de pessoas importantes como o montador Silvio Renoldi e o cineasta Andréa Tonacci esclarecem alguns momentos do início da carreira do cineasta.

 

Logo após o documentário foi exibido “Sem essa Aranha”. Filme brilhante, que compõe a trinca de filmes dirigido por Sganzerla na Belair (produtora sua com Júlio Bressane). “Aranha” é um filme composto de longos planos seqüência (sem cortes), câmera trepidante, e tiradas sarcásticas. A questão central abordada na fita é a do povo brasileiro, faminto e vítima do “capital desinteressado estrangeiro”. O espectador se depara com um filme agressor em todas as formas (visual, sonora). O caos representado por Maria Gladys, que grita insistentemente o filme quase todo “Ai que fome! Que dor de barriga!” nunca foi tão atual. A péssima qualidade da imagem do filme (assisti uma cópia em 35 mm que estava em melhor estado) torna os planos ainda mais primitivos (mas apenas os planos).

 

No dia 19 teremos a oportunidade de assistir a “Copacabana Mon Amour”, filme raríssimo que só foi exibido apenas três vezes, em mostras, nos últimos 4 anos. Não sei nada sobre esse filme, a não ser que ele também compõe a trinca da Belair, é nomeado a partir de “Hiroshima Mon Amour” e tem trilha sonora rara de Gilberto Gil. O outro longa que completa essa série da produtora está em estágio avançado de decomposição, precisando de uma restauração urgente! Trata-se de “Carnal na Lama” ou “Betty Bomba, a exibicionista”. Não duvido nada que “Copacabana” pelo menos arranhe questões pertinentes na obra do cineasta em geral, como o subdesenvolvimento brasileiro, a boçalidade de personagens autoritários e a mistura lúdica entre representação e a ficção dela.           

 

No mais, serão exibidos os geniais “O Bandido da Luz Vermelha” e “A Mulher de Todos”, “Abismú” e “Isto é Noel”. Os dois primeiros são obras obrigatórias para a compreensão do cinema esteticamente sofisticado no Brasil. Influenciado por Godard, Welles e Chanchadas, Sganzerla parece ter encontrado uma forma de se fazer cinema autoral, sem soar como subproduto, e usando o primitivismo como expressão artística e ideológica. “Abismú” é um filme que merece uma atenção especial nos longos planos de Norma Bengell dirigindo com um charuto na boca. Trilha de “Rainbow Bridge“, filme cult dos anos 60 com Jimi Hendrix. “Isto é Noel” fala sobre o compositor Noel Rosa, outro filme que também não conheço. Me limito a falar apenas que foi motivo de calúnias publicadas por uma colunista carioca no início do ano. Chance única de assistir a filmes feitos por um cineasta que pensava o cinema em forma de expansão, sempre sob o signo do caos. O do