Campeão mundial juvenil retoma carreira e mira Jogos Olímpicos do Rio

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Publicado quinta-feira, 21 de novembro de 2013 as 12:50, por: cdb
De acordo com o técnico, David vem frequentando os treinamentos regularmente há cerca de 60 dias
De acordo com o técnico, David vem frequentando os treinamentos regularmente há cerca de 60 dias

Cercado por inúmeras fotos, recortes de jornal e troféus na academia que dirige, o técnico Messias Gomes chama todos os seus alunos de “campeão” ao cumprimentá-los antes de mais um dia de treinamento, ainda que sejam garotos com menos de 15 anos. Para David Lourenço, no entanto, a saudação é literal. Campeão mundial e olímpico juvenil, o jovem retoma a carreira após passar uma semana desaparecido em 2012 e pensar em abandonar o boxe nos últimos meses.

Orientado pelo pai, David começou a lutar com apenas quatro anos. A carreira iniciada dentro de casa tomou grandes proporções em 2010, temporada em que o garoto conquistou o Mundial e as Olimpíadas da Juventude. Ele diz ter lidado bem com a eliminação precoce no Pan-americano-2011, embora fosse um dos candidatos ao título em Guadalajara. A ausência nas Olimpíadas-2012, no entanto, colocou a carreira promissora em risco.

Confuso, David passou quase uma semana dormindo no próprio carro, estacionado em uma rua sem saída. A família, desesperada com o sumiço do garoto, reencontrou-o graças a um amigo e falou em sinais de depressão. Desde então, o jovem não conseguiu retomar a rotina de treinamento e acabou deixando a Seleção em meio a atritos com a Confederação Brasileira de Boxe (CBBoxe), presidida por Mauro José da Silva.

– O ano de 2010 me marcou muito. Ganhei os dois títulos que todo o mundo queria ganhar. Só eu consegui, mas foi muito difícil e precisei me esforçar bastante. Em 2012, estava com uma grande expectativa de disputar as Olimpíadas, mas mudaram do nada e colocaram outro (Esquiva Falcão) – lembra David, com o olhar vacilante e esfregando as mãos sem parar. “Minha cabeça deu uma reviravolta e comecei a pensar em bobeiras”.

O jovem deixou a Seleção em 2013 e passou aproximadamente seis meses sem treinar. Neste período, chegou a ajudar o pai em algumas atividades da pequena academia mantida pela família dentro de casa, o que não o impediu de alcançar os 94kg – ele mede 1,69m e lutava na categoria até 75kg. Afastado da rotina de um atleta de alto rendimento, o campeão mundial e olímpico juvenil mais uma vez cogitou a possibilidade de encerrar a carreira.

– Eu estava precisando de um tempo para pensar. Tinha que esfriar a cabeça e pensar na minha vida para ver o que realmente queria fazer, se era mesmo o boxe ou não. Cheguei a pensar em parar para sempre. A questão não era nem passar para o boxe profissional ou não. Pensei realmente em parar de lutar de vez”, lembrou David, que não se adaptou ao tratamento psicológico oferecido na época. “A mulher não me entendia – justificou.

Enquanto pensava em seu futuro, ele passou a acompanhar o irmão Igor, 15 anos, durante seus treinamentos no Centro Olímpico de Treinamento e Pesquisa (COTP). Desta forma, encontrou o Messias. Na academia montada debaixo das arquibancadas do estádio de atletismo, o ex-lutador, além de preparar um novo representante da família Lourenço para o boxe, tratou de evitar que mais um jovem com potencial ficasse pelo caminho.

– O David vinha sempre com o irmão, mas não treinava. Ficava só assistindo. Acho que ver o garoto mais novo treinando foi uma motivação. Devagarzinho, a gente conversou algumas vezes e ele decidiu recomeçar os treinamentos. É fácil perceber que está motivado e feliz por voltar – explicou Messias Gomes, experiente. “Muitos boxeadores já se perderam não só pela parte psicológica, mas também por falta de incentivo e de visão”, completou o ex-lutador.

De acordo com o técnico, David vem frequentando os treinamentos regularmente há cerca de 60 dias, sempre ao lado do irmão mais novo. No primeiro teste, em um evento organizado pela Federação Paulista de Boxe (FPB), o lutador, hoje com 21 anos, saiu como vencedor, já entre os adultos. A falta de ritmo decorrente dos nove meses sem disputar qualquer combate foi compensada com uma dose de confiança nos próprios punhos.

– Como estava sem ritmo de luta e distância, fiquei um pouco preocupado no começo. Subi no ringue e pensei: ‘vamos que vamos, que Deus me ajude’. Fiz o que sei e deu certo. Graças a Deus, fui campeão”, contou David, em preparação para disputar o Campeonato Sul-Sudeste, previsto para o final de novembro. “Quero ganhar de novo. Estou me acostumando e voltando a gostar do boxe. Com mais sequência, vou melhorar – afirmou.

O Centro de Treinamento da Seleção Brasileira, antes frequentado por David, é enfeitado por fotos de alguns boxeadores em momentos de glória, entre eles o próprio jovem, que por sua vez se sente à vontade no novo ambiente de trabalho, apenas com atletas mais novos. Admirado pelos companheiros, ele retomou não apenas a própria carreira, mas também o sonho de disputar os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro-2016.

– Fiquei me lembrando de tudo o que eu e meu pai passamos juntos e pensei que tenho chance de dar a volta por cima. Meu maior objetivo é lutar em 2016. Se Deus quiser, vou estar lá”, disse David, sem qualquer tipo de mágoa dos dirigentes da CBBoxe e dos antigos companheiros de Seleção. “Se me chamarem, volto tranquilamente. Não vou ficar guardando rancor. Sou campeão mundial e olímpico juvenil, mas procuro não pensar muito nesses títulos. Penso daqui para a frente – disse.

A concorrência de David Lourenço na busca por uma vaga na próxima edição das Olímpiadas diminuiu recentemente. Na semana passada, Esquiva Falcão, medalha de prata nos Jogos de Londres-2012, decidiu migrar para o boxe profissional, o que impossibilita sua participação em 2016. Como ambos lutam na categoria até 75kg, em tese o caminho para o Rio de Janeiro fica mais aberto para a promessa que quase abandonou a carreira.

– Todos nós devemos ter uma meta na vida. Como sempre digo, o homem sem objetivos é um morto ambulante. O David é jovem, tem um potencial tremendo e não pode deixar isso de lado. Acho que agora ele está sentindo mais a responsabilidade do trabalho. Espero que consiga reassumir a categoria e volte para a Seleção Brasileira. Em 2016, com certeza, o País vai estar bem representado nas Olimpíadas do Rio de Janeiro – disse o Messias.