Camisinha, aborto e masturbação

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Publicado domingo, 27 de maio de 2007 as 19:02, por: cdb

Tínhamos parado onde ? Na questão do aborto. E, durante esta semana, me chegou ao conhecimento que 200 mil mulheres vão ao hospital, no Brasil por ano, para atendimento em consequência de sequelas depois de aborto clandestino.

Não tenho dados sobre quantas morrem por falta de médico e em consequência de rupturas internas e nem quantas conseguem abortar em boas condições. Sem se falar que o Brasil tem uma triste estatística de partos de adolescentes pobres e miseráveis.

Essa uma realidade que a Igreja ignora, mas que nós homens láicos não podemos minimizar na análise da questão. A proibição do aborto não impede o aborto e nem o abandono de crianças não desejadas.

Guardada a proporção é a mesma situação de Galileu obrigado pela Igreja a negar que a Terra girava em torno do Sol e não o inverso, sob pena de virar churrasco em consequência da aplicação da chariá cristã da época. Sua negativa diante da lei universal não impedia que o planeta continuasse a girar, como balbuciou após a retratação.

Não seria mais cristão condenar o aborto como pecado, mas deixando a cada mulher decidir sua prática, do que condená-las a viver o inferno de um aborto clandestino com fazedoras de anjinhos sem formação médica, como ocorre ?

Outra coisa a acentuar, mesmo na debochada França, onde o aborto é legal – o aborto deve ser o último recurso. Antes do aborto existe a contracepção, para se evitar a fecundação do óvulo feminino pelo espermatozóide.

A fim de impedir que adolescentes ainda na escola fiquem grávidas ao descobrirem o sexo ou nas primeiras experiências, os franceses facilitam o hábito das pílulas anticoncepcionais e com isso se limitam às situações extremas. Na maioria dos países europeus, existem também aulas de orientação sexual no primário e secundário para suprir a deficiência de informação nas famílias onde o sexo é tabu.

Com o surgimento da pílula anticoncepcional, nos anos 60, o preservativo, usado já pelos egípcios, tinha sido ridicularizado por impedir o contato direto mais sensível entre os dois sexos, além da pausa para ser colocado, a ponto de se ter criado, naqueles anos de libertação da mulher, a frase – não se chupa bala com papel.

Infelizmente surgiu o virus da Aids, contra o qual a pílula nada pode, e a camisinha retornou, como se no mundo do jornalismo o e-mail voltasse a ser substituído pelo telex. E aqui duas razões se conjugam em favor do preservativo – a de proteger contra a Aids e contra uma gravidez não desejada. Sim, porque a evolução da espécie animal “humana” permite se programar a gravidez. É a uma das determinantes da libertação da mulher. Na história do Brasil, houve a Lei do Ventre Livre, pela qual os filhos de escravas se tornavam livre; quando nossos legisladores aprovarem o aborto, serão as mães brasileiras que conquistarão sua liberdade plena com uma nova Lei do Ventre Livre.

A Igreja (também os evangelistas americanos) quer sufocar tudo isso a pretexto de que abortar equivale a matar. Ora, para a quase totalidade dos cientistas, a vida humana só começa no nascimento, o feto é um projeto em execução. Por isso, um acordo generalizado de se abortar, mesmo no caso de uma gravidez desejada, quando o projeto de bebê apresenta falhas profundas.

Esse raciocínio de feto igual a ser humano pode levar a absurdos. Alguns leitores confundiram, nos seus comentários, vida humana com espermatozóide. Assim, represar a ejaculação de espermatozóides na camisinha seria equivalente a matar milhões de vidas, impedidas de nadarem até o óvulo. Aceitar esse absurdo seria criminalizar adolescentes e adultos praticantes da masturbação, considerada benéfica para a próstata dos mais velhos.

Para terminar, apenas um alerta – na terça-feira, na Câmara Federal, o deputado Raul Jungmann alertou contra um projeto sigiloso do Itamaray de uma concordata entre Brasil e o Vaticano, da qual faria parte a não legalização do aborto. O Brasil é um pa