Camila Pitanga estrela drama amoroso de Brant e Ciasca

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Publicado sexta-feira, 20 de abril de 2012 as 07:27, por: cdb

Eu Receberia as piores notícias dos seus lindos lábios
Camila Pitanga em cena de Eu Receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios completa uma espécie de mapa, um território geográfico e emocional do Brasil que se constroi na filmografia dos diretores Beto Brant e Renato Ciasca, do escritor e roteirista Marçal Aquino e da produtora Branca Villar – uma das mais consistentes parcerias do cinema brasileiro recente.

O ponto de partida é, mais uma vez, um livro de Aquino – como em cinco dos sete filmes do quarteto paulista, a partir de Os Matadore (1997). É a quarta história de amor em seguida, depois de Crime Delicado (2005, baseado em livro de Sérgio Sant’Anna), Cão sem Dono (2007, adaptando livro de Daniel Galera) e O Amor segundo B. Schianberg (2010), deslocando-se desta vez ao Pará – que se soma ao Mato Grosso do Sul, São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul visitados em outros filmes.

A melhor novidade desta história é abrigar a personagem feminina mais forte, respectivamente, do cinema e da literatura dos amigos Brant, Ciasca e Aquino: Lavínia, interpretada com toda visceralidade por Camila Pitanga, que trabalha pela primeira vez com os diretores e recebeu o prêmio de melhor atriz no Festival do Rio em 2011. O filme também foi premiado em Huelva, Espanha, e na Mostra Internacional de São Paulo.

Moradora de uma cidade do Pará, Lavínia ajuda o marido, o pastor Ernani (Zé Carlos Machado), em sua missão junto aos moradores locais. Ao mesmo tempo, envolve-se numa forte paixão com o fotógrafo Cauby (Gustavo Machado), um forasteiro radicado ali há muito tempo.

As produções da trupe paulista são fruto de intensas colaborações coletivas e isso transpira em cada cena deste vibrante novo filme, cujo foco dramático está na divisão de Lavínia entre suas duas realidades, levando adiante sua contradição feroz, sua beleza intensa e uma dor maior do que a vida, marca de um passado muito complicado.

Inseridos no contexto candente da luta pela terra e o desmatamento da Amazônia -com direito a várias inserções documentais, marca registradas destes diretores-, os personagens são filmados em longos planos-sequência, que permitem a cada ator revelar a verdade de seu papel com a força que a história procura, muito fiel à atmosfera do romance original, apoiando-se na fluência da montagem de Willem Dias, colaborador habitual dos diretores.

Não só a realidade social explosiva como também a luz e as cores da Amazônia entram em cheio no filme, através da fotografia de Lula Araújo – um grande conhecedor da região, engajado em diversos projetos para a TV de Washington Novaes (como Xingu – A Terra Ameaçada) e também fotógrafo do belo Tamboro, de Sérgio Bernardes, ainda inédito no circuito comercial, e que foi o motivo de sua aproximação com os diretores.

A riqueza visual é enriquecida pela direção de arte de Akira Goto (habitual parceiro do diretor José Eduardo Belmonte), responsável, por exemplo, por um dos cenários principais, a casa em que se desenrola a paixão entre Lavínia e Cauby, repleta de pinturas do próprio Goto e fotografias realizadas por Gustavo Machado – que realizou um treinamento específico anteriormente às filmagens com o fotógrafo Cisco Vasques.

A percussionista Simone Sou assina a trilha sonora, ao lado de Alfredo Bello, e também faz uma participação como a intrigante xamã que aparece numa ponta.

Essa pegada de vida real se introduzindo na história, além de sua atmosfera colaborativa, são a mais clara assinatura deste filme – que constitui um exemplar raro da tentativa de um cinema adulto, de sentimentos e enraizado no Brasil contemporâneo, ao lado de Xingu, de Cao Hamburger.

No elenco, participam ainda Gero Camilo -como o jornalista Vitor Laurence, que tem um papel crucial na trama-, o ator paraense Adriano Barroso, como o policial Polozzi; Chico Chagas, como um ex-matador; e Antonio Pitanga, pai de Camila, numa ponta como um outro pastor.