Cadê o futuro?

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Publicado terça-feira, 15 de setembro de 2015 as 15:00, por: cdb

Por Tarcísio Lage, de Hilversum, Holanda:

Muitas invençoes previstas por escritores ou futurólogos ainda não se realizaram
Muitas invençoes previstas por escritores ou futurólogos ainda não se realizaram

As décadas de 60 e 70 do século passado foram anos de chumbo no Brasil sob a ditadura militar, mas em todo mundo vivia-se uma febre futurista. Kubrick no filme 2001 Odisseia no Espaço, com base em livro de Arthur Clark, imaginava cruzeiros turístico para a Lua no início do século e viagens programadas para Marte que está tão próximo.

Pois estamos em 2015 e o que existe é um projeto de viagem para o planeta vermelho, mas sem bilhete de volta.

Na década de 70, no auge da febre futurista, foi chocado o ovo da internet pelos funcionários dos serviços de espionagem dos EUA. Eles se aproveitavam das facilidades de comunicação entre os possantes computadores da CIA e do Pentágono para trocarem mensagens pessoais. Bingo! Mas foi preciso esperar até a década de 80 para o advento dos computadores pessoais e, aí, a ideia começou a vingar em maior escala.

Demorou uma década para que tais computadores evoluíssem de carroças cibernéticas como o Comodoro 64 (quem se lembra?) para máquinas com mais memória e programas que permitissem as interconexões. Era coisa de 10 minutos a meia hora para enviar um simples e-mail utilizando as precárias linhas telefônicas no início da década de 1990. Por volta do ano 2000, já havia 200 milhões de pessoas ligadas à internet, quase todas nos EUA, na Europa e Japão. Na África contava-se nos dedos e, em toda a América Latina, privilégio de pouco mais de 5 milhões.

Quanta frustração para quem bebeu na fonte futurista dos anos 60 e 70! Herman Khan, do famoso Hudson Institute de Nova York, previu o fim da fome no ano 2000 graças à produção de alimentos em estufas bem protegidas, independente das loucuras climáticas.

Em 1967, o supercomputador da Rand Corporaion em Santa Mônica, Califórnia, talvez tenha tido seus circuitos alimentados com LSD baratinado de otimismo: previu carros sem motorista em 1985 e, a partir do ano 2000, o ensino em maternidade, inoculando-se no cérebro de um recém-nascido algo equivalente a uma Enciclopedia Britânica inteira.

E a Sibéria, gente, transformada num paraíso verdejante, iluminada por sois artificiais por conta da fusão nuclear, limpa e não poluidora. E toca lá cidades cibernéticas, cobertas por cúpulas transparentes, livres de toda poluição, com a taxa de oxigênio exata que necessitamos.

O setor agrícola em toda a Rússia totalmente sob controle com robôs zelando até pela respiração das plantas, afirmava com orgulho socialista o Centro de Cálculo da Academia de Ciências da ex-União Soviética.

Jacques Bergier da revista Planète, outro que abusou da pílula futurista, enxergava fila de gente nos centros de congelamento para ser acordada em 100, 200, sei lá quantos anos.

No já citado 2001, Uma Odisseia no Espaço, nas telas a partir de 1968, além de turistas em vôo de carreira para a Lula ao som do Danúbio Azul, uma nave com muitos dos tripulantes congelados rompia a imensidão do espaço lá pelos lados de Saturno sob o comando de um robô gigantesco. A nano tecnologia não havia sido devidamente prevista.

Pouca coisa, pouca coisa mesmo, se cumpriu dessa febre futurista. Nem se cumpriram previsões de visionários anteriores. O desenvolvimento do Capitalismo não desembocou no Comunismo, a sociedade sem classes sociais, pois não haveria escassez, conforme previa o jovem Karl Marx e seu amigo Frederick Engels no Manifesto do Partido Comunista de 1848.

Felizmente, também, não aconteceram as previsões dos pessimistas, que viam o último homem sendo esmagado pela última árvore que derrubasse ou, então, mortos sufocados na multidão que ocuparia o Planeta inteiro segundo as previsões de de Thomas Malthus. Também não surgiu o Big Brother personagem de 1984 de George Wells, descrevendo uma sociedade repressora de dar inveja a Adolf Hitler ou Josef Stalin.

No entanto, apesar dos celulares cada vez mais sofisticados e a capacidade de armazenamento de dados quase ilimitado, ainda estamos presos a velhas tecnologias. Os carros que circulam nas ruas e estradas têm motores substancialmente os mesmos daqueles que saiam das linhas de montagem de Henry Ford no amanhecer do século 20, evacuando dióxido de carbono pelo cano de descarga. E os aviões, beirando a estratosfera, bombardeiam a frágil camada de ozônio do Planeta.

Por mais que canais como o Discovery nos falem dos encantos da aeronáutica moderna, com os maravilhosos bombardeiros que só erram o alvo por causa dos relapsos pilotos da OTAN, o fato é que que todos os aviões que cruzam os céus usam flaps fundamentalmente iguais aos utilizados no início do século passado.

Enfim, a imaginação vai muito mais rápido do que todo progresso tecnológico. No final do século 19, mesmo com a precária tecnologia de então, o inglês H.G Wells escreveu a Máquina do Tempo e até acertou algumas previsões, como as guerras que assolaram o século 20. Leonardo da Vinci, Júlio Verne, Aldous Huxley… É uma lista enorme de mentes ansiosas para enxergar o futuro, sem se esquecer do futurólogo mais pessimista de todos, Nostradamus.

No entanto, a incógnita do futuro permanece. Uma pedrinha de nada pode desencadear desenvolvimentos imprevistos ou solavancos indesejados.

Para a geração que viveu a febre futurista das décadas de 1960 e 1970, o futuro chegou.e a opção mais avançada é comprar um bilhete sem volta para Marte.

Tarcísio Lage, jornalista, escritor, começou na Última Hora de Belo Horizonte no início dos anos 60. Com o golpe de 1964 teve de deixar a cidade e o curso de Economia na UFMG. Até 1969, quando foi condenado pela Injustiça Militar, trabalhou em várias redações do Rio e São Paulo. Participou da tentativa de renovação da revista O Cruzeiro e da reabertura da Folha de São Paulo, em 1968. Exilado no Chile no final de 1969, trabalhou, em seguida, em três emissoras internacionais: BBC de Londres, Rádio Suiça, em Berna, e Rádio Nederland, em Hilversum, na Holanda, onde vive atualmente. As Tranças do Poder é seu último livro.

Direto da Redação é um fórum, editado pelo jornalista e escritor Rui Martins.