Cadê o diabo de quatro dedos?

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Publicado terça-feira, 15 de outubro de 2002 as 14:37, por: cdb

Por essa nem o todo poderoso esperava: Lula deixou de ser o diabo barbudo de quatro dedos tão difamado, há quatro anos, pelos diretores da Igreja Universal, hoje os mesmos aliados do presidenciável que lidera – com folga – a corrida para o Planalto. Mas cabe a pergunta: foi Lula quem converteu a IURD ou foi a IURD quem converteu Lula? Deus saberá. Dizia o sábio e quase presidente Tancredo Neves, quando em campanha pelos grotões de Minas pelas Diretas Já: “se o político quiser saber como é falado em uma casa, é só encarar uma criança. Se ela sorrir, é porque você é bem vindo, caso contrário, é porque falaram mal de você lá”. Lula assustaria uma criança com sua barba por fazer, mas não a um fiel da Universal – e com todo o respeito à seita.

Se você quer saber como falam de Lula hoje nos cultos, é só olhar para um dos evangélicos: é todo sorrisos. Sim, o diabo foi exorcizado. Lula não é mais aquele fervoroso ex-operário que aparecia na televisão contra o FMI e a Febraban. O Lulinha Light moderou o discurso, sentou à mesa com representates destas instituições e limpou o prato, cuspido pelo povo. Outra: trocou a camisa pólo suado pelo terno Armani – para deleite das críticas do sindicalista Paulo Pereira da Silva. Poderia ter sido fechada a chave de ouro a bela campanha que o PT tem feito neste pleito, mas o petista ainda caiu na armadilha do poder: aceitou o apoio de seus antigos algozes. Abraçou o PL, Sarney e Quércia. Saudades do diabo de quatro dedos.

O próprio candidato, em entrevista a Jô Soares há oito anos, admitiu que o poder o fascina. A todos nós, evidentemente, mas o PT chegou a um ponto em que a aceitação destas alianças o neutralizou. Hoje, votamos na figura histórica que Lula representa para o país, por sua trajetória, e não no Partido dos Trabalhadores, que está corroendo a cada abraço do companheiro petista a ex-adversários. Morreu o diabo de quatro dedos. Nasce um potencial presidente, com uma qualidade: o poder de conciliação. O tempo concedeu a Luiz Inácio a astúcia da classe política: o dom de aniquilar o adversário do passado com um aperto de mão. Na verdade, independentemente do resultado das eleições, o grande vitorioso – temos que reconhecer – é Fernando Henrique Cardoso. Ele conseguiu mudar o PT sem mover um dedo. Para conquistar o Palácio, Lula caiu na jaula do poder. Mas ainda há tempo de ser salvo dos leões.