Briga internas na Aliança do Norte deixam governo do Afeganistão à deriva

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Publicado sexta-feira, 23 de novembro de 2001 as 21:30, por: cdb

As divergências entre grupos rivais afegãos, alinhados na Aliança do Norte, aprofundaram-se nos últimos dias e abrem um grande ponto de interrogação sobre o futuro do Afeganistão na era pós-Talebã.

Às portas de Cabul, centenas de rebeldes resistem às divisões de poder estabelecidas pela Aliança do Norte ou Frente Unida, nova autoridade da capital afegã.

A rua em direção a Maidanshar, o centro no qual estão agrupados os rebeldes, está repleta de caminhonetes carregadas de mujahedins.

Após os violentos combates desta quinta-feira, nesta sexta os bandos suspenderam as hostilidades, mas não ficou claro se foi para permitir a retirada dos civis ou porque negociações políticas estão em curso.

“Os rebeldes não são talibãs. Eu os conheço bem e estou em contato com eles. São pashtus, favoráveis à Loya Jirga (tradicional assembléia dos chefes tribais) e ao retorno do ex-rei Zaher Shah”, disse o general Mohamed Ghul Ariobal, ex-comandante da Aliança do Norte, agora independente.

Ariobal foi comandante da jihad contra a invasão soviética (1979-1989) e, em 1994, foi vice-ministro da Defesa do governo dos mujahedins presidido por Burhanuddin Rabbani, que se encontra em Cabul há uma semana, após a retirada dos talebans.

Naquele momento, o ministro da Defesa era Ahmad Shah Massud, o popular líder tadjique assassinado pelos árabes de Osama bin Laden em 9 de setembro passado, dois dias antes dos atentados contra os EUA.

De etnia pashtu, nos últimos anos Ariobal abandonou seus velhos companheiros e “conviveu” com os talebans, mas sem fazer parte do regime do mulá Mohammed Omar.

Seu testemunho constitui um caso à parte, às vezes contraditório, mas que faz emergir as divergências na Aliança do Norte e provoca interrogações inquietantes sobre o futuro afegão.

“Os homens que estão combatendo em Maidanshan”, comentou, “estão a mando do mulá Mohamed, que esteve com os talibãs, mas está a favor de convocar a Loya Jirga. Havia talebans dispostos a enfrentar um processo de paz, mas foram eliminados um a um.”

Entre os talebans a favor de um acordo de paz, Ariobal citou o mulá Rabbani e o mulá Burjan. Rabbani morreu de câncer, e Burjan faleceu na batalha por Cabul em 1996, mas, segundo Ariobal, teria sido assassinado pelos radicais do grupo do mulá Omar e Osama bin Laden.

“Enviei uma mensagem ao mulá Mohamed, dizendo-lhe que devemos lutar pacificamente pela Loya Jirga e pelo retorno de Zaher Shah”, afirmou Ariobal.

Segundo o comandante, também na Jamiat-i-Islami do presidente Rabbani existem “moderados” que tentam participar de forma construtiva da conferência da próxima segunda-feira em Bonn, onde os principais líderes dos grupos étnicos afegãos tentarão chegar, sob o patrocínio da ONU, a um acordo que permita evitar uma guerra civil.

Entre os moderados, o ex-comandante citou o ministro do Interior, Yunus Qanuni, que será o representante da Aliança do Norte na Alemanha.

“Com Rabbani, entraram novamente os russos, e são eles que conduzem o jogo”, acrescentou.

Para Ariobal, a força que controla Cabul é composta por não mais de 3.000 a 4.000 homens bem treinados, todos guerrilheiros da Shura-i-Nizar, a milícia “privada” de Massud, que atualmente está sob as ordens de seu sucessor, o general Mohamed Fahim.

“Fahim tem o poder, Rabbani é uma figura simbólica sem força militar.”

Os outros milhares de homens armados que caminham ameaçadores pelas ruas da capital são ex-talibãs que desertaram, ex-militares que estavam com os talibãs por oportunismo e jovens que se envolveram na milícia para ganhar algum dinheiro.

Na opinião de Ariobal, a paz passa pela avaliação da dimensão de Rabbani, Fahim e a Haiat-i-Islami. Suas posições não são compartilhadas pelos hazaras do Hezb-i-Wahdat e os uzbeques do general Rashid Dostum, os outros componentes da Aliança.

Disse que os afegãos lamentarão se a Jamiat ficar sozinha no poder em Cabul e for a única facção, além dos talebans no sul, com uma mínima orga