Brasileiro conta como foi o ataque à Nova Iorque

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Publicado sábado, 15 de setembro de 2001 as 12:07, por: cdb

Nessa entrevista, ele conta como a trágédia marcou sua vida. Há pouco menos de um ano, ele era empregado de uma empresa, localizada no 84º andar da outra torre, exatamente na parte que foi alvo do segundo avião.

André Kamikawa: Eram quase 9 da manhã. O mercado do Brasil abre às 9 horas, horário de Nova York, e estávamos nos preparando para começar o dia, quando ouvimos um estrondo e sentimos um tremor, um movimento muito forte do prédio indo para trás e depois voltando.

Era como se você estivesse em uma cadeira de balanço. A reação inicial das pessoas foi levantar e esperar para ver o que ia acontecer. Se o prédio ia continuar caindo ou não. O prédio se estabilizou.

Olhei para a direita pela janela e vi vários destroços caindo. Antes de tocar qualquer alarme as pessoas correram em direção às escadas. Eu fui pela escada mais próxima.

Quando chegamos ao 15º andar, começamos a sentir um cheiro de fumaça, então, o grupo decidiu procurar outra saída. Outras pessoas continuaram por ali e eu fiquei sabendo que eles também conseguiram sair, graças a Deus.

Quando entramos no saguão do 13º andar, encontramos muitas pessoas e os telefones estavam funcionando. Todos tentavam se comunicar e aí fiquei sabendo que um avião havia colidido com a torre.

BBC: O que mais marcou você nesse episódio?

AK: Os bombeiros. Eu queria registrar minha admiração pelo trabalho dos bombeiros. Você encontrava eles nas escadas. Nós descendo e vendo aqueles homens subindo, carregando até 20 quilos de equipamento.

Cansados porque estavam subindo a pé. E a posição deles é essa: arriscar a vida, dar a vida deles para salvar outras, e foi o que acabou acontecendo. Mais de 300 bombeiros estão desaparecidos. Infelizmente, eles não tiveram chance de sair do prédio.

A segunda coisa que me marcou muito foi quando saí do prédio, atravessei a rua e já estava a uns dois quarteirões de distância quando, finalmente, olhei para cima e vi as duas torres pegando fogo.

Aquilo me marcou muito. Até então, não tinha visualizado o atentado, não tinha percebido a gravidade da situação. Quando a primeira torre caiu, eu já estava mais distante. Foi uma coisa inacreditável porque eu ainda imaginava que haveria uma recuperação.

Pensava: vão gastar muito para recompor a estrutura. Foi quando vi aquela torre enorme, o estrondo que fez… E depois aquela onda de poeira avançando pela cidade e as pessoas correndo. Parecia uma cena de… nem em filme eu vi coisa igual.

Quando já estava mais distante e ouvi que tinham atingido o Pentágono, eu pensei: o Pentágono? Como podem jogar um avião em cima do Pentágono? Neste momento, eu comecei a ter noção da gravidade do problema.

BBC: Ainda não se sabe ao certo quem são os autores do atentado. Mas o que você sente quando pensa nas pessoas que podem estar por trás disso?

AK: Minha preocupação é saber que vai haver um contra-ataque, mas, por mais que haja esse ataque, sempre vai sobrar alguém, algum outro grupo que vai sobreviver e vai criar uma geração de outros revoltados que talvez daqui a 10, 15 anos, vai causar outro atentado.

BBC: Depois do que aconteceu, você quer voltar para o Brasil?

Sempre tive, mesmo antes. É o meu país, onde estão as pessoas mais próximas a mim, onde as pessoas têm uma cultura parecida com a minha, mas a minha vida estava estabelecida aqui. Vamos ver como fica em relação ao emrpego.

O maior motivo que me fazia ficar aqui era o emprego. Se não tiver um emprego que compense, então, eu voltaria. Mas não é algo que me faça querer voltar de imediato. Quero sair dessa terra agora, voltar. Não tenho esse sentimento.

BBC: Como um brasileiro, acostumado à insegurança no país, como você se sente agora vivendo numa cidade como Nova York, que era um modelo de segurança até terça-feira?

Essa sensação de segurança desapareceu de imediato. Uma coisa que eu sempre admirei aqui foi o fato de Nova York ser uma metrópole onde tudo acontece, milhões de pessoas moram e na