Brasil vê posse de Lula como a chegada de um novo tempo

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Publicado quarta-feira, 1 de janeiro de 2003 as 20:42, por: cdb

Impossível não se emocionar. Cento em trinta mil pessoas, segundo estimativas da Polícia Militar, fizeram ontem uma impressionante festa na Esplanada dos Ministérios. O espaço ficou inteiramente colorido de vermelho comemorando a esperança de um novo Brasil. Trabalhadores manuais e intelectuais, estudantes, negros, brancos, homens, mulheres, velhos, jovens e crianças tomaram as ruas em homenagem aos novos tempos.
Afinal, Lula vai governar o Brasil.
Até São Pedro ajudou. O mau tempo que há 15 dias tomava conta de Brasília arrefeceu. O sol se abriu e as parcas pancadas de chuva não chegaram a incomodar. Ao contrário, serviram até para refrescar a festa.
Em cada canto, gente vestida a caráter, sempre com muita criatividade. Camisetas, bonés, faixas – tudo especialmente preparado para a posse. Expontanemanete, as pessoas entoavam o Lula lá, da campanha de 1989, ou Pra não dizer que não falei de flores, de Geraldo Vandré.
Um casal circulava com um boneco de Lula em tamanho natural e uma máquina fotográfica. A R$ 1, fazia fotos dos interessados, que eram muitos.
Quando Lula passou, no velho Rolls Royce, não houve esquema de segurança que desse conta do recado. O cordão de isolamento foi rompido e houve quem se pendurasse no pescoço presidencial para sapecar-lhe um beijo.
Nesta hora, impossível não lembrar os tempos ásperos, em que ameaças de prisão, tortura e morte pairavam sobre os que se opunham à ditadura militar. Impossível esquecer aqueles que não puderam viver a alegria de ontem por terem ficado no caminho – nos duros anos de construção do PT e nos anteriores, mais duros ainda, de resistência à ditadura. A vitória é, também, de cada um deles.
Desde os mais celebrados, como Marighella ou Chico Mendes, até os desconhecidos da maioria, como Eudaldo Gomes da Silva ou Angela Borba, é impossível não pensar na injustiça que significa não poderem, eles também, estar festejando.
Impossivel não lembrar o início dos anos 80, quando três grandes vertentes se encontraram para fazer realidade o sonho do PT: líderes do novo sindicalismo, como Lula; segmentos da Igreja progressista, como o saudoso Joaquim Arnaldo, e sobreviventes de grupos clandestinos, como José Dirceu. Pouco a pouco, integrantes dessas vertentes foram se conhecendo, superando diferenças e, sobretudo, descobrindo a riqueza que cada uma poderia aportar no projeto conjunto.
Impossível não pensar também na disputa de 89 – a mais heróica das campanhas do PT. Lá, o gostinho da vitória chegou a adoçar a boca, antes que a decepção da derrota chegasse para dar lugar à farsa chamada Fernando Collor.
Mas, contida um pouco a euforia – mais do que justa e compreensível – é preciso não perder de vista que a vitória da esperança, hoje, tem muito de ponto de partida de um longo trajeto. É uma vitória fundamental, porque sem os primeiros passos não há caminhada. Mas é como se tivesse início, agora, uma nova fase da travessia – tão ou mais difícil do que a cumprida até aqui.
A estratégia da campanha de Lula – sintetizada pelo candidato na expressão bem humorada Lulinha Paz e Amor – mostrou-se eficaz do ponto de vista eleitoral. A essa altura é rematada tolice discutir se foi a mais acertada ou se, com um discurso mais incisivo, Lula também teria chegado ao Planalto. Isso pertence ao passado.
Mas como qualquer estratégia esta trouxe conseqüências. Algumas nomeações do novo presidente, por exemplo, se destinam claramente a acalmar o mercado. Em português claro, a sinalizar que não haverá mudanças bruscas. É o caso não só do tucano Henrique Meirelles na presidência do Banco Central, como de titulares de outros importantes cargos da área econômica.
Outra conseqüência do caminho escolhido é a aparente aceitação da autonomia (ou independência – o que é a mesma coisa) para o Banco Central e de mandato fixo para seus dirigentes. Essas novidades trazem tantas implicações na condução da política econômica que, compreensivelmente, Fernando Henrique as recusou.
De qualquer forma, se n