Brasil vai ao encontro da OMC em clima de guerra

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Publicado terça-feira, 2 de setembro de 2003 as 15:32, por: cdb

O Brasil está caminhando para o encontro crucial da Organização Mundial de Comércio na próxima semana, em Cancún, determinado a lutar pela redução das barreiras comerciais para produtos agrícolas e disposto a bloquear qualquer acordo que ignore esta questão.

Como o maior produtor mundial de vários produtos agrícolas, como o açúcar, café e suco de laranja, o país está pedindo que esta rodada de negociações de comércio mundial chegue a uma solução para o problema das tarifas impostas pelos países ricos — cavalo de batalha brasileiro há anos.

– Nós preferimos não fechar nenhum acordo do que fechar um acordo ruim – disse à Reuters o representante brasileiro na OMC, o embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa.

O Brasil tem um peso forte nos fórums de comércio mundial por ser o maior país do bloco econômico Mercosul e a principal economia da América Latina.

Seixas Corrêa afirmou que, embora as conversações preparatórias para Cancún que aconteceram em Genebra nas últimas duas semanas não tenham alcançado um consenso entre os membros da OMC, no encontro de ministros no México ainda é possível se chegar a um acordo.

– As negociações globais normalmente são assim, algumas vezes você acha que está na beira do precipício, e então consegue encontrar uma solução. Eu não diria que há um grande otimismo sobre isso, mas talvez os ministros possam resolver o que nós não conseguimos – disse Seixas Corrêa.

O ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, foi menos otimista e antecipou o fracasso da rodada ministerial de negociações em Cancún, que acontecerão entre os dias 10 e 14 de setembro.

– Como há um sinal de que não haverá um acordo agrícola, as discussões sobre os demais temas também deverão sofrer prejuízos. Há uma perigosa sombra sobre Cancún – disse Rodrigues em comunicado.

O Brasil foi um dos principais países em desenvolvimento a apresentar uma proposta no mês passado para uma reforma agrícola na OMC que exigisse cortes substanciais nos programas de incentivo agrícola da Europa e da América do Norte.

O plano, apoiado por outros 16 principais produtores agrícolas como a Índia e a China, foi a resposta dada à proposta dos Estados Unidos e da União Européia que, na visão dos países em desenvolvimento, era vago na questão de redução das tarifas e não incluía cortes nos programas de complementação da renda agrícola.
O conselho da OMC tentou chegar na semana passada a um consenso sobre o terceiro plano preparado pelo embaixador uruguaio, Carlos Perez del Castillo, com o apoio do diretor-geral da OMC, Supachai Panitchpakdi, que não agradou nem os países ricos nem os em desenvolvimento.

– Ninguém ficou satisfeito – disse Seixas Corrêa, acrescentando que o Brasil pode assegurar que todas as propostas ainda estão na mesa.

Ele também observou que a rodada de Doha sobre livre comércio só se encerra no fim de 2004 e que avanços podem ser alcançados até lá, mesmo que a reunião de Cancún fracasse.