Brasil faz campanha contra prostituição infantil no Carnaval

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Publicado quinta-feira, 27 de janeiro de 2005 as 20:14, por: cdb

Todas as noites nesta temporada de Carnaval, a carioca Marcela, 15, coloca um vestido preto semitransparente sobre seu corpo, no qual os seios mal aparecem, e sai à caça de clientes.

Mas a mirrada jovem, que debutou na profissão mais antiga do mundo aos 13 anos, se queixa do fato de não poder mais visitar tantos bares e hotéis quanto suas colegas mais velhas, apesar de os turistas fervilharem ao redor em busca de companhia paga.

O governo está tentando combater a prostituição de menores, que tem brasileiros e estrangeiros como clientes, e espera acabar com a reputação do Brasil como destino privilegiado para o turismo sexual.

– Antes era mais fácil, mas agora alguns lugares estão fechados para mim, e muitos clientes estão assustados. Mesmo meu RG falso dizendo que eu tenho 18 não ajuda muito – diz Marcela, depois de passar a noite em bares baratos e lotados da Vila Mimosa, a zona de prostituição carioca, onde o controle da idade praticamente inexiste.

Mesmo longe da agitação turística, ela conseguiu 100 reais com dois clientes.

Durante o dia, o traje de Marcela consiste em camisetas com personagens de desenhos animados, shorts e chinelos. Desse jeito, ela parece ainda mais nova do que é. “Ainda tenho de ajudar minha família”, diz ela.

Na quarta-feira, um inédito relatório do governo mostrou que quase 20 por cento das cidades brasileiras têm esquemas organizados de prostituição de menores. Um terço dessas cidades fica no Nordeste. A meta do governo é reduzir o número de cidades atingidas pelo problema pela metade até 2006.

A campanha sobre o tema foi lançada neste mês, às vésperas do Carnaval, quando o Brasil — e especialmente o Rio — recebe hordas de turistas deslumbrados com o samba, as mulheres seminuas e os bailes em que há distribuição de preservativos.

– Queremos mostrar que este é um país que combate a exploração sexual de crianças de forma organizada, que se trata de um crime hediondo, o que significa cadeia – disse o ministro do Turismo, Walfrido dos Mares Guia, ao apresentar a campanha, na quinta-feira, no Rio.

Haverá anúncios nos meios de comunicação pedindo que os cidadãos denunciem essa atividade. Os turistas e os funcionários do setor serão constantemente lembrados de que fazer sexo com menores ou agenciá-las pode dar até dez anos de prisão.

A polícia criou linhas telefônicas especiais para receber as denúncias e já fez várias prisões, inclusive de cafetões que percorriam as praias cariocas com álbuns de meninas e meninos. Vários vôos fretados na Itália por uma rede de prostituição infantil foram cancelados. Todos os recepcionistas de hotéis terão de assinar um termo se comprometendo a não admitir hóspedes acompanhados de menores que não sejam seus parentes.

Mas essas medidas, por si sós, não resolvem o problema dos meninos e meninas que precisam se prostituir para sobreviver.

– O que está sendo explorado é a miséria econômica e moral dos jovens – disse o padre italiano Renato Chiera, que trabalha em abrigos para crianças de rua do Rio e faz campanhas contra o abuso sexual.

– O Estado deve investir em educação e empregos, criar uma alternativa para eles. Sem isso, o mercado só vai se tornar clandestino, mais profissional – disse Chiera, que trabalha em Fortaleza, cidade que ele considera ser a “capital” do turismo sexual no Brasil.

Vôos fretados repletos de homens solteiros pousam semanalmente no Nordeste. Nas praias, adolescentes se oferecem para os turistas livremente, à vista da polícia. Chiera diz que às vezes vê meninas de apenas 12 anos brincando com bonecas nas calçadas enquanto esperam clientes.

Sidney Alves Costa, coordenador do programa no Ministério do Turismo, disse à Reuters que o plano visa ao treinamento profissional e à criação de empregos para jovens no setor turístico.

Carlos Brasilia, coordenador da ONG Instituto Brasileiro para Inovações na Saúde Social, elogiou o caráter permanente da nova campanha, que não se restringe ao Carnaval, como em oca