Bombas dos EUA atingem Médicos Sem Fronteiras: 20 mortos

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Publicado sábado, 3 de outubro de 2015 as 20:44, por: cdb

Por Redação, com Reuters – de Kundus, Afeganistão:

Um ataque aéreo liderado pelos Estados Unidos na cidade de Kundus, região montanhosa do Afeganistão, atingiu um hospital da organização Médicos Sem Fronteiras e deixou ao menos 20 mortos e 37 feridos neste sábado. De acordo com nota divulgada pela entidade, nove vítimas faziam parte da ONG.

O bombardeio atingiu o hospital onde morreram os médicos da organização Médicos Sem Fronteiras
O bombardeio atingiu o hospital onde morreram os médicos da organização Médicos Sem Fronteiras

Segundo o MSF denunciou em suas redes sociais, o ataque durou cerca de meia hora em uma área que “todas as partes do conflito, incluindo Cabul e Washington, conheciam as coordenadas das nossas estruturas há meses”. O porta-voz das forças norte-americanas no Afeganistão, coronel Brian Tribus, informou que a operação “poderia ter causado danos colaterais a uma estrutura médica da cidade” e que “o incidente está sendo investigado”. Já os militares afegãs alegam que, no hospital, “se escondiam de 10 a 15 terroristas” que foram mortos, mas reconheceram que “também médicos morreram”.

O comissário da União Europeia para a Ajuda Humanitária, Christos Stylianides, afirmou estar “profundamente chocado sobre a morte do staff médico da MSF”. Até mesmo os talebãs, que estão sendo atacados pelos EUA, afirmou que o “ataque selvagem” é condenável. A ONG Emergency, que também trabalha com hospitais de campanha na região, condenou o atentado e prestou “solidariedade” aos colegas do MSF. “Bombardear um hospital onde se curam feridos é um ato de violência inaceitável. Um hospital é um local de cura e como tal é tutelado. É preciso que os hospitais sejam respeitados por todos os lados do conflito, como previsto na Convenção de Genebra”, afirmou em nota a organização.

A Emergency também informou que as pessoas que estavam sendo atendidas pelos Médicos Sem Fronteiras serão transferidos para seus hospitais. A região de Kundus está sendo bombardeada pelos EUA e por forças locais desde o dia 29 de setembro, quando amanheceu nas mãos do grupo terrorista Talebã. Essa é a primeira cidade que os extremistas conseguem reconquistas desde que o regime talibã foi derrubado pelos norte-americanos em 2001.

Madrugada

Médicos da ONG Médicos Sem Fronteiras, momentos após a explosão que matou 20 pessoas, entre elas profissionais de Saúde
Médicos da ONG Médicos Sem Fronteiras, momentos após a explosão que matou 20 pessoas, entre elas profissionais de Saúde

Forças do governo afegão, apoiadas pelo poder aéreo dos EUA, têm lutado para expulsar o Talebã da capital de província no norte desde que combatentes a capturaram seis dias atrás, na maior vitória de sua insurgência de quase 14 anos. Um morador, Khodaidad, disse à agência inglesa de notícias Reuters que o Talebã estava usando as construções do hospital como abrigo durante o combate de sexta-feira.

— Eu podia ouvir os sons de tiroteio pesado, explosões e aviões durante toda a noite. Houve diversas grandes explosões e parecia que o teto estava caindo sobre mim — acrescentou.

As forças dos EUA lançaram um ataque aéreo às 02h15 da madrugada, disse o porta-voz coronel Brian Tribus, em comunicado. No hospital bombardeado do grupo humanitário, uma parede desabou, espalhando fragmentos de vidro e molduras de portas de madeira, e três quartos ficaram em chamas, disse Saad Mukhtar, diretor de saúde pública em Kunduz.

— Fumaça preta espessa podia ser vista subindo de alguns cômodos… O combate ainda está ocorrendo, então tivemos que sair — relata.

O chefe de direitos humanos da Organização das Nações Unidas, Zeid Ra’ad al-Hussein, disse que o ataque foi “trágico, indesculpável e possivelmente até criminal”.

— A gravidade do incidente é sublinhada pelo fato de que, se estabelecido como deliberado em um tribunal, um ataque aéreo contra um hospital pode ser considerado um crime de guerra — disse.

O chefe das forças lideradas pelos EUA no Afeganistão, general do Exército John Campbell, pediu desculpas ao presidente do país, Ashraf Ghani, segundo comunicado do escritório de Ghani.

Explicações

No comunicado, a Médicos sem Fronteiras afirmou que o mais provável é que o hospital tenha sido bombardeado por forças lideradas pelos EUA.

“Todas as indicações no momento apontam para o bombardeio ter sido realizado por forças da Coalizão Internacional. A MSF demanda por uma explicação total e transparente da coalizão sobre suas atividades em Kunduz na manhã deste sábado”, concluiu.