Bolívia: Afinal de contas, quem são os golpistas?

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado sexta-feira, 14 de dezembro de 2007 as 11:26, por: cdb

O presidente Lula estava coberto de razão quando exclamou em Buenos Aires, em uma das cerimônias da posse de Cristina Fernandes de Kirchner, que Evo Morales “foi a coisa mais extraordinária que aconteceu recentemente na América do Sul”. Poderíamos acrescentar que para a Bolívia foi a coisa mais extraordinária que aconteceu em seus cinco séculos de existência.

A Bolívia tinha muita prata nas minas das montanhas de Potosi. Na época colonial, a prata de Potosí foi, durante mais de dois séculos, a principal alavanca do desenvolvimento capitalista da Europa. “Vale um Potosí”, se dizia, para elogiar o que não tinha preço. Em meados do século XVI, a cidade mais povoada, mais cara e que mais esbanjava no mundo brotou e cresceu ao pé da montanha que manava prata. Essa montanha, o chamado Cerro Rico, devorava índios. As comunidades se esvaziavam de homens, que de todas as partes marchavam prisioneiros, rumo à boca que conduzia aos buracos escavados.

Do lado de fora,  temperaturas de gelo. Do lado de dentro, o inferno. De cada dez que entravam, somente três saíam vivos. Mas os condenados à mina, que pouco duravam, geravam a fortuna dos banqueiros flamengos, genoveses e alemães, credores da coroa espanhola, e eram esses índios que faziam possível a acumulação de capitais que converteu a Europa no que a Europa é. O que ficou na Bolívia, de tudo isso? Uma montanha oca, cheia de buracos, uma incontável quantidade de índios assassinados por extenuação e uns quantos palácios habitados por fantasmas.

No século XIX, quando a Bolívia foi derrotada na chamada Guerra do Pacífico, não só perdeu sua saída ao mar e ficou encurralada no coração da América do Sul. Também perdeu seu salitre. A história oficial, que é história militar, conta que o Chile ganhou essa guerra; mas a história real comprova que o vencedor foi o empresário britânico John Thomas North, Sem disparar um tiro nem gastar um centavo, North conquistou territórios que haviam sido da Bolívia e do Peru e se converteu em um dos homens mais ricos do mundo, no “rey del salitre”, que era então o fertilizante imprescindível para alimentar as cansadas terras da Europa. Saiu todo o salitre da província de Antofogasta, então pertencente à Bolívia,  ficaram os buracos, e os salitreiros na miséria.

No século XX, a Bolívia foi o principal abastecedor de estanho no mercado internacional.

Na profundidade dos buracos escavados nas montanhas de Huanuni, Oruro, o implacável pó de salitre matava por asfixia. Os pulmões dos trabalhadores apodreciam para que o mundo pudesse consumir estanho barato. Durante a Segunda Guerra Mundial, a Bolívia contribuiu à causa aliada vendendo seu mineral a um preço dez vezes mais baixo que o preço de sempre. Os salários dos trabalhadores se reduziram a nada, houve greve, as metralhadoras dispararam fogo. Simón Patiño, dono do negócio e amo do país, não teve que pagar indenizações, porque a matança por metralha não é acidente de trabalho.  Don Simón pagava US$ 50 anuais de imposto de renda, mas pagava muito mais ao presidente da nação e a todo o seu gabinete. Vivia entre Paris e Londres onde se refinava o estanho. Suas netas e netos ingressaram na nobreza européia. Casaram-se com condes, marqueses e parentes de reis. Quando a revolução de 1952 destronou Patiño e nacionalizou o estanho, era pouco o mineral que restava. Ficaram os buracos, e os mineiros imersos na secular miséria. 1

A Bolívia está cheia de gás e petróleo. Seu povo, cansado de séculos de exploração, miséria e racismo, contudo escaldado dos buracos deixados pela predatória exploração de suas riquezas naturais, resolveu eleger o índio aimara, Evo Morales. E o fez com a expressiva votação de 53,74%, porque Evo prometeu e cumpriu anterior plebiscito, nacionalizando o gás e o petróleo. Hoje, passado ano e meio, só com esta medida a receita fiscal passou de 300 milhões para 2 bilhões de dólares anuais. E mais, porque Evo prometeu que uma nova constituição