Blatter, uma vitória de Pirro

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Publicado sexta-feira, 29 de maio de 2015 as 15:48, por: cdb
Blatter ganhou mas como será a FIFA frente aos processos por corrupção?
Blatter ganhou mas como será a FIFA frente aos processos por corrupção?

Joseph “Sepp” Blatter, o suíço que preside a FIFA, me lembra muito o capitão corrupto em Casablanca que se declara “chocado, chocado” ao descobrir que no cabaré de Rick, o protagonista vivido por Humphrey Bogart, havia jogos de azar, enquanto um empregado chega com um maço de dinheiro e lhe entrega, dizendo “aqui está a sua parte”.

Sepp Blatter preside a FIFA desde 1998, quando foi eleito para substituir o brasileiro Jean-Marie Faustin Godefroid de Havelange, mais conhecido como João Havelange, na entidade.

Tive que achar graça quando a imprensa internacional disse que, na eleição de Blatter, envelopes cheios de dinheiro trocavam de mãos no luxuoso hotel em que se hospedavam os delegados dos países membros da entidade.

Achei graça porque era uma mera repetição do que acontecera em 1974, em Frankfurt, quando o senhor João Havelange foi primeiramente eleito para o cargo.

Alçado à presidência da entidade, João Havelange tratou de trazer para ela técnicas de marketing e conheceu um ainda jovem economista, Sepp Blatter, que trabalhava para a Federação Suíca de Hóquei sobre Gelo e também na Longines, fábrica de relógios.

Havelange levou-o para a FIFA e o resto é história. Blatter galgou posições, acabou ocupando o cargo de Secretário-Geral e quando Havelange finalmente largou o osso, depois de um  quarto de século, Blatter foi eleito para o posto.

O que aconteceu com Havelange é conhecido. Por causa de escândalos de corrupção, envolvendo recebimento de quantias por baixo da mesa, foi obrigado a renunciar ao cargo de Presidente Honorário da FIFA e também à sua posição no Comité Olímpico Internacional, onde era o membro mais antigo. Seu ex-genro Ricardo Teixeira,  que pretendia tornar-se presidente  da FIFA quando Blatter enfim desistisse de ser continuamente reeleito, foi obrigado, pelo mesmo suborno que envolveu João Havelange, a renunciar à Confederação Brasileira de Futebol e a mudar-se para Miami.

Agora o governo americano pede a extradição de diversos ocupantes de cargos na FIFA, entre eles o brasileiro José Maria Marin, antigo presidente da CBF, por crimes financeiros, desde extorsão (“racketeering”) a evasão de Imposto de Renda sobre dinheiro ilicitamente recebido.

É curioso notar que foram exatamente tais acusações que levaram à prisão e condenação do famoso mafioso Al Capone.

Já que usei a palavra inglesa “racketeering” foi usar outro termo da mesma língua para definir o que Blatter vem fazendo desde que seus “auxiliares” foram presos no luxuoso hotel Baur au Lac, em Zurique: ele está “stonewalling”. Isto é, sua tática é negar, negar, negar, garantir que de nada sabia.

Foi o que ele mais uma vez declarou nesta quinta-feira, véspera de uma nova eleição na FIFA na qual é novamente o favorito: “não posso tomar conta, todo o tempo, do que as outras pessoas estão fazendo”.

Mas, como bom economista, Blatter sabe muito bem que, no mundo corporativo, o Executivo Chefe é, em última análise, responsável pelos desmandos, incompetência e desonestidade de seus subordinados.

É mais do que provável que Blatter venha a se reeleger nesta sexta-feira, mas ele virou uma espécie de “dead man walking”. Está a caminho de sua execução, mais cedo ou mais tarde.

Sepp Blatter talvez seja o mais esperto do  todos os cartolas do planeta, mais esperto do que seu mentor, João Havelange.

Ele é o Poderoso Chefão, o Grande Sobrevivente, mas sua insistência de que de nada sabia e luta “pelo bem do futebol” já o levou longe, bem longe.

Tão longe que agora chegou ao fim da linha.

José Inácio Werneck, jornalista e escritor, trabalhou no Jornal do Brasil e na BBC, em Londres. Colaborou com jornais brasileiros e estrangeiros. Cobriu Jogos Olímpicos e Copas do Mundo no exterior. Foi locutor, comentarista, colunista e supervisor da ESPN Internacional e ESPN do Brasil. Colabora com a Gazeta Esportiva. Escreveu Com Esperança no Coração sobre emigrantes brasileiros nos EUA e Sabor de Mar. É intérprete judicial em Bristol, no Connecticut, EUA, onde vive.

Direto da Redação é um fórum de debates, editado pelo jornalista Rui Martins.