Big Brother pede passagem

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Publicado segunda-feira, 10 de março de 2003 as 19:54, por: cdb

Imagine um país cujo governo tivesse acesso a todos os dados eletronicamente registrados de sua vida privada: gastos com cartão de crédito, saques de dinheiro em caixas eletrônicos, históricos escolares, compras em supermercados, livros retirados em bibliotecas, sites visitados na Internet, números de telefone discados, registros de pedágios, fichas de vídeos alugados. Agora imagine que, por meio de supercomputadores, tal governo pudesse cruzar todos os dados e classificá-los segundo “padrões de comportamento”. E imagine que, por qualquer razão, você acabou sendo enquadrado em uma “categoria comportamental” considerada perigosa: você poderá ser detido por policiais que nem sequer terão de informar os motivos, ou poderá ser interrogado sem que se expliquem as razões, no melhor estilo de Franz Kafka.

“O Olho que tudo vê”
Não é ficção, mesmo que você tenha pensado em 1984, de George Orwell. O Departamento da Defesa dos Estados Unidos anunciou, no fim de 2002, um vasto programa estratégico, intitulado Conhecimento Total de Informações (TIA, Total Information Awareness), com o objetivo de permitir ao governo rastrear os movimentos dos 290 milhões de cidadãos estadunidenses, para “prevenir ataques terroristas”. As informações eletrônicas, fornecidas por corporações privadas, além dos registros públicos, serão armazenadas em gigantescos bancos de dados (para mais informações, consulte o site www.epic.org/privacy/profiling/tia/). Detalhe: 45 por cento dos executivos de grandes empresas admitiram já ter passado informações sobre seus clientes ao governo; 41 por cento declararam-se dispostos a fazê-lo voluntariamente, mesmo sem uma ordem judicial, segundo uma pesquisa realizada pela revista especializada em segurança e endereçada aos executivos, CSO, publicada em 18 de dezembro de 2002 (www.csoonline.com/csoresearch/report49.html). O logotipo do programa diz tudo: o “olho que tudo vê”, que aparece no Grande Selo dos Estados Unidos, joga um facho de luz sobre o globo terrestre. O lema do departamento é “Scientia est potentia” (conhecimento é poder). Big Brother chega em grande estilo.

Mas o pior vem agora: o projeto todo foi idealizado por ninguém menos que John Poindexter, assessor de segurança nacional do presidente Ronald Reagan em 1985-86, quando foi acusado de liderar a “operação Irã-Contras”. Agentes secretos estadunidenses, sob a chefia direta do braço direito de Poindexter, coronel Oliver North (espécie de “Rambo da vida real”), vendiam mísseis a Teerã, de forma clandestina e ilegal; os fundos eram destinados a financiar os “contras”, guerrilheiros de direita que lutavam para depor o governo sandinista da Nicarágua. Em 1990, Poindexter foi condenado por cinco acusações, incluindo conspiração e mentir ao Congresso, mas acabou absolvido por um tribunal de apelações, pois seus depoimentos haviam sido dados sob a garantia de imunidade. No governo Bush, Poindexter é diretor do Escritório para o Conhecimento de Informações (encarregado de implantar o TIA), que por sua vez faz parte da Agência para Pesquisa de Projetos Avançados da Defesa (Darpa, na sigla em inglês), responsável pela criação da Internet.

Tudo, menos Poindexter
Mesmo aqueles que aceitam, em tese, a idéia do programa não suportam a perspectiva de ter Poindexter na chefia. “Se temos que ter um Grande Irmão, John Poindexter é o último nome da lista que eu escolheria”, diz o senador democrata Chuck Schumer. Outros políticos disseram estar dispostos a propor medidas destinadas a garantir o direito à privacidade dos cidadãos (estadunidenses, é claro). Os mais importantes jornais do país – incluindo The New York Times e The Washington Post – criticaram a indicação de Poindexter. Pete Aldridge, subsecretário do Pentágono para pesquisas tecnológicas, tentando acalmar os ânimos, alega que Poindexter foi o idealizador do projeto, apresentado logo após o atentado de 11 de setembro de 2001, e que só permanecerá na sua chefia durante a fase de pesquisas e instalação.