BC liga a máquina de fazer dinheiro e amplia risco de alta inflacionária no Brasil

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Publicado quarta-feira, 23 de outubro de 2002 as 17:20, por: cdb

O Banco Central do Brasil passou a aumentar, nos últimos meses, a base monetária do Brasil, ampliando a emissão de reais. A manobra, conhecida como monetização, presta-se para solucionar – em regime de emergência a escassez de crédito no mercado, embora contrarie preceitos básicos do Plano Real como a estabilidade financeira. A expansão da base monetária do país, de US$ 13 bilhões no período, visa ao resgate de títulos cambiais que o governo não vem conseguindo rolar.

Entre setembro do ano passado e deste ano, a base monetária do país – total de dinheiro em posse do população e em depósitos bancários – passou de R$ 45,133 bilhões para R$ 58,165 bilhões, o que se explica pela monetização.

Ex-diretor do Banco Central e professor do Ibmec Business School, o economista Carlos Thadeu de Freitas afirma que a expansão da base indica a opção do governo por financiar parcela da dívida pública com um nível maior de inflação, de modo a reduzir as pressões da dívida interna. Ontem, venceu US$ 1,1 bilhão em swaps cambiais (contratos que rendem variação do dólar mais juros) que não foram rolados e tiveram que ser resgatados.

A monetização, segundo Freitas, provavelmente será mantida pelo próximo governo, que também enfrentará dificuldades, em um primeiro momento, com a baixa oferta mundial de crédito. A reversão dessa tendência dependerá não só do resgate da credibilidade da política econômica do país, mas principalmente da melhoria do cenário externo, com a recuperação da economia americana.

Do ponto de vista técnico, a monetização é um recurso que precisa ser calibrado pelo BC com o aumento da taxa básica de juros (Selic), sob o risco de perder-se o controle da inflação. Daí, segundo Freitas, o aumento da Selic de 18% para 21%, na semana passada. Sem o ajuste da Selic, justifica o economista, corre-se o risco de migração de dinheiro das aplicações financeiras para ativos reais, como bens de consumo duráveis e imóveis.

Embora outubro ainda não tenha terminado, até o dia 11 deste mês a base já havia se expandido de R$ 57,6 bilhões para R$ 61,2 bilhões, uma variação de 5,2%, ou R$ 3,6 bilhões, em apenas nove dias úteis.

No último dia 17, quando venceram US$ 3,6 bilhões em títulos cambiais, o BC não conseguiu rolar mais do que 53,5% dos papéis – o equivalente a US$ 1,88 bilhão. Nos últimos meses, principalmente a partir de julho, segundo o economista do Ibmec, o governo só tem rolado uma média de 50% a 70% dos papéis cambiais. Parte da diferença, diz, tem sido compensada pela Casa da Moeda. O BC confirmou as emissões, mas não revelou valores.

Ontem, o Banco Central tentou rolar sem sucesso mais US$ 525 milhões em swaps. Os vencimentos da dívida cambial têm contribuído para pressionar a cotação do dólar. Os detentores desses papéis pressionam a cotação do dólar um dia antes do vencimento para lucrar com a operação. Isso porque, a Ptax (média das operações e volume de transações) do dia anterior é a utilizada para corrigir os contratos cambiais.

As últimas tentativas de rolagem da dívida têm sido frustradas também devido às elevadas taxas de juros pedidas pelos detentores dos contratos. Como existe a expectativa de que o dólar caia após as eleições, os investidores pedem alto para rolar os papéis, compensando, nos juros, o risco de uma variação cambial negativa.

Desde que voltou a fazer operações com swaps cambiais, em maio passado, o BC já perdeu R$ 12,25 bilhões. O prejuízo decorre da disparada do dólar, que, desde então, já subiu mais de 60%. Só nos primeiros 11 dias do mês, o prejuízo foi de R$ 1,37 bilhão – 70% mais do que os R$ 7,2 bilhões previstos no Orçamento para os investimentos da União em 2003.