Balança comercial apresenta resultado positivo no final do ano

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Publicado segunda-feira, 17 de dezembro de 2001 as 16:03, por: cdb

Embora muitos analistas considerem que o dólar já tenha esgotado sua trajetória de queda, a tendência de recuperação das contas externas brasileiras deve impedir uma alta mais forte da moeda americana. Esta melhora das contas externas foi reafirmada pelo resultado da balança comercial da segunda semana de dezembro e que foi positivo em US$ 125 milhões. Com isso, o superávit acumulado no mês passa a US$ 129 milhões e o superávit acumulado no ano atinge US$ 1,91 bilhão, muito próximo, portanto, da previsão oficial de US$ 2 bilhões para 2001.

Esta confirmação da reação da balança, que começou em setembro, tende a afetar positivamente os negócios no mercado cambial. Porém, não deve alterar a percepção, que parece majoritária no mercado, de que o câmbio está próximo de uma espécie de piso. Para muitos analistas, o ponto de equilíbrio para a moeda americana seria entre R$ 2,40 e R$ 2,50, o que significaria que o dólar ainda teria algum espaço de alta. Matéria veiculada hoje no jornal O Estado de S. Paulo reforça esta percepção. Segundo o jornal, o fato de o dólar estar nos menores níveis em cinco meses estaria estimulando a venda de produtos importados como bebidas e eletroeletrônicos.

Embora a queda do dólar tenha efeito pequeno nos preços, importadores comentam que o recuo influencia psicologicamente o comprador. De todo modo, como este aumento de vendas ocorre na véspera de fim de ano, quando o impulso consumista é maior, nada indica ainda que ele comprometerá a balança comercial.

Até prova em contrário, o mercado brasileiro continua descolado do risco argentino. No entanto, analistas financeiros continuam acompanhando a evolução da crise no país vizinho, que segue se agravando à medida em que o governo dá contínuos sinais de perda de controle da situação. Depois dos saques aos depósitos bancários, iniciou-se nesta semana uma nova onda de saques, agora atingindo os supermercados. Segundo relata o repórter Vladimir Goitia, da AE em Buenos Aires, este novo sintoma da crise traz de volta os fantasmas de 1989, quando a hiperinflação aguda também precipitou uma onda de saques. Na época, o desenlace da crise foi a reúncia do presidente Raúl Alfonsín, substituído por Carlos Menen, que pouco depois criaria o piso atrelado ao dólar e, com isto, derrubaria a inflação.

Doze anos depois, a história ameaça se repetir, embora com a diferença que o motor da crise agora é a recessão, e não a alta de preços. O presidente, De la Rúa, que enfrenta índices históricos de desaprovação popular, é do mesmo partído de Alfonsín, a UCR. E, no ápice da crise, parece emergir novamente a figura de Menen, defensor da dolarização. A possibilidade de a Argentina viver uma ruptura de modelo econômico sob comando de um governo absolutamente enfraquecido, para muitos no mercado é um risco maior do que o esperado calote da dívida.

Uma crise institucional, acredita-se, pode ser um motivo forte o bastante para o mercado brasileiro voltar a sofrer o contágio argentino, rompendo o descolamento que se verifica desde fins de outubro. Por ora, contudo, o mercado brasileiro ainda mantém a postura de sangue-frio, enquanto aguarda um desfecho da situação em Buenos Aires. Mesmo que o descolamento seja abalado, porém, o contágio deverá ser tanto menor quanto melhores estejam os resultados das contas externas brasileiras. Neste sentido, o saldo da balança comercial foi um bom sinal.