“Awe Maria, cheia de graça”

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Publicado domingo, 13 de abril de 2003 as 10:45, por: cdb

Das críticas mais contumazes ao mundo islâmico, da nossa imprensa em geral, e do Departamento de Estado dos EUA em particular, ouvimos algo que parece até razoável: o Islã, genericamente falando, estaria conectado a um mundo medieval, in illo tempore, isto é, desde o início dos tempos, porque admitiria a mistura entre o Estado e a religião – uma separação sacrossantíssima obtida por nós, não-muçulmanos, desde a Revolução Francesa. No mundo islâmico, essa mistura do Estado com a religião se chama sharia – de resto, usada como pièce-de-résistance na derrubada de Reza Pahlevi, em 1979, na revolução do aiatolá Khomeini, e na perseguição que este promoveu contra o Salman Rushdie dos Versos Satânicos.
Dá um repuxão saber que George W. Bush também está cometendo uma sharia: afinal, em quase todos os seus discursos, está empregado o também sacrossantíssimo vocábulo Deus. Bush emprega o vocábulo soteriológico, de salvação pelo divino, o deus ex machina, nos mesmos moldes de qualquer muçulmano medievo. O que o torna farinha do mesmo saco.
O populacho, em geral, também fica bestificado por Bush ter desrespeitado a ONU. Bem, alguém tinha outro tipo de esperança de um republicano? Nos EUA, o que limita os poderes presidenciais é aquela constituição de 7.000 palavras. Raoul Berger, de Harvard, por exemplo, conta que Richard Nixon violou essas 7.000 palavras por 370 vezes em 2.027 dias de governo… Alguém achava que a realpolitik republicana mudaria em trinta anos? Talvez tenham feito alguns ajustes no discurso, a título de campanhas eleitorais. Mas todas elas foram adjetivas, não substantivas. Também o populacho em geral acha estranho que a nação do Tio Sam apóie a guerra na expressão de mais de 70 por cento da população. Só para lembrar: quando a Guerra do Vietnã gerava aquela geração contracultural, capitaneada pelos hereges de Harvard, como Timothy Leary, Allan Watts, Ginsberg e Joel Tornabene (autor da idéia do flower power), quem ganhou as eleições foi Nixon, não McGovern. “O povo americano fez uma associação entre McGovern e a liberação do movimento gay, aos militantes negros que fumavam maconha e ao movimento Womens Lib”, conta o congressista James O’Hara (Presidential Campaigns, de Paul Boller Jr., Oxford University Press, página 335). Posto isto: alguém pensou que agora seria diferente?
O que não tem se falado, também, é da conexão entre os motivos econômicos da guerra. Ou, melhor dizendo: já virou chavão dizer que Bush quer o petróleo. Mas o buraco é mais embaixo. A guerra contra o Iraque não é pelo petróleo apenas: é para desencalhar a produção. Depois da surra dada nos nazistas, em Estalingrado, em 1943, e do desembarque dos Aliados no norte da África, em 1942, a economia dos EUA cresceu como nunca. O PIB cresceu 90 por cento, a produção industrial 60 por cento, e o desemprego caiu para apenas 500.000 almas no olho da rua. Em 1946, finda a guerra, a produção industrial dos EUA caiu 30 por cento, o desemprego subiu para 2,2 milhões de pessoas. Quem diz é o historiador Gabriel Kolko.
Lembremos que, quando ocorreu a invasão do Kosovo, em abril de 1999, a ex-secretária Madeleine Allbright disse que ali se criava “um novo mercado para escoar a produção excedente dos EUA”.
Talvez a explicação para a guerra contra o Iraque esteja no economista preferido de Renato Pompeu: Kondratieff.
Vejamos o livro Le Bonheur Économique, de François-Xavier Chevallier (Albin Michel, 1998, Paris). Ele nos conta coisas nada animadoras, com base nas teorias dos “ciclos”, do economista russo Kondratieff. Para o economista, avanço tecnológico e redução de tempo de produção resultam em guerras para lastrear a produção encalhada pela redução de seu tempo de produção. A Revolução Industrial teria gerado, a partir de 1783 e seguindo o economista, o crack na Bolsa de Londres e a Revolução de 1830. A introdução da química do ferro, a partir de 1837, a Revolução de 1848, a Guerra de Secessão nos EUA, o crack de Viena. A química pesada, no início do