Aumentam boatos sobre renúncia de Menem

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quarta-feira, 7 de maio de 2003 as 10:29, por: cdb

Enquanto o candidato à presidência da Argentina apoiado pelo presidente Eduardo Duhalde, Néstor Kirchner, viaja ao Brasil e Chile com a postura de já ter sido eleito, seu adversário, o ex-presidente Carlos Menem, também do Partido Justicialista, está cada vez mais envolvido na versão de que renunciaria à sua candidatura para não ter de amargar uma dura derrota no dia 18 de maio.

Menem vive um isolamento político com o apoio somente dos seus sempre fiéis seguidores mas não tem conseguido novos aliados para o segundo turno das eleições.

Nem mesmo Adolfo Rodríguez Saá, um dos candidatos peronistas derrotados no primeiro turno, que odeia Eduardo Duhalde, se alinhou com Menem mas também não o fez com Kirchner. Porém, é cada vez maior o número de seguidores de Rodríguez Saá que se inclinam para o lado de Kirchner, apontado pelas pesquisas de opinião como futuro presidente, com uma distância de até 20 pontos de Carlos Menem.

O ex-presidente não conseguiu nem mesmo fazer eco às suas ameaças de denúncias de fraude para concretizá-las perante a Justiça e perdeu os prazos legais. Para completar o negro cenário para Menem, seu adversário conseguiu o apoio explicíto não só do principal sócio no Mercosul, mas do presidente que conta com cerca de 80% de imagem positiva junto aos argentinos que dizem “sonhar” com um Lula para a Argentina.

Diante deste cenário, dentro e fora do governo e do menemismo, a versão que tem ganhado corpo é a de que Carlos Menem renunciaria à sua candidatura para que não haja segundo turno em 18 de maio, tirando assim a legitimidade de Néstor Kirchner.

Se Menem abandonar a disputa antes do tempo, Kirchner seria consagrado presidente com 22% dos votos que obteve no primeiro turno. Neste caso, o ex-presidente poderia desfrutar de um governo questionado por sua legitimidade, cheio de controvérsias e brigas pela governabilidade que ajudariam a esquecer a sua “fuga” do ringue.

Para Eduardo Duhalde, a renúncia de Menem seria um prato cheio para a sua vingança contra o ex-aliado que o obrigou também à renunciar, em 1996, ao seu velho sonho de ser o candidato presidencial do PJ porque Menem quis a reeleição.

Porém, para seu candidato seria um destastre iniciar o governo com a legitimidade questionada. Para evitar um governo debilitado, onde Duhalde pretende continuar dando as cartas, o presidente iniciou uma estratégia de provocações contra Menem para que ele não renuncie ao segundo turno.

Segundo os analistas políticos, os boatos de renúncia (assim como o desmentido) foram divulgados pela própria campanha de Menem para “tatear” a reação de uma decisão desta natureza.

Rosendo Fraga, da consultoria Unión para la Nueva Mayoria, acredita que a renúncia de Menem “é possível mas pouco provável” porque ele sabe que “esta é a última oportunidade de chegar à presidência e não vai renunciar à tentar, embora saiba que tem muito poucas chances de ganhar”.

No entanto, o analista considera que pode existir esta possibilidade porque “já há um antecedente em 98, momento em que Menem buscava a famosa re-reeleição (o terceiro mandato)”.

– Duhalde o desafiou a realizar um plebiscito para consultar à população se estava de acordo. Menem, calculando que tinha grandes chances de perder, o rejeitou e desistiu de sua candidatura.

O cientista político Franco Castiglioni não acredita na hipótese de uma desistência de Menem por uma razão: “mantendo os votos do primeiro turno, mais uma porcentagem que haverá de brancos e nulos, teria um resultado aceitável” e não uma derrota esmagadora, como vêm dizendo o governo e as pesquisas. Castiglioni dá outra razão para que Menem não desista: “diante de qualquer investigação judicial que sofra no futuro, algo que não é difícil de ocorrer já que existem inúmeras denúncias contra o ex-presidente, ele poderá resguardar-se dizendo que é um ataque à uma personalidade política que teve o apoio de um terço da população, politizando qualquer investigação”, raciocinou.