Aumenta volatilidade no norte da África após ataques da França a Mali

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Publicado terça-feira, 15 de janeiro de 2013 as 12:05, por: cdb
Militar acompanha o desembarque de um blindado para atuar na frente de batalha no Mali
Militar acompanha o desembarque de um blindado para atuar na frente de batalha no Mali

A presença de células da organização radical Al Qaeda, de orientação islâmica, aumenta em países do Oriente Médio e no norte da África, o que facilitou o sequestro de um casal finlandês e um homem austríaco, capturados em dezembro, após terem sido vendidos ao grupo islâmico por líderes tribais, segundo afirmou uma importante autoridade iemenita, nesta terça-feira, à agência inglesa de notícias Reuters. Ninguém explicou que atividades exerciam os três ocidentais que, aparentemente, estudavam árabe no Iêmen, um dos países mais violentos da região.

Os europeus foram sequestrados por homens armados na capital Sanaa, em 21 de dezembro, de acordo com uma autoridade do Ministério do Interior. A fonte afirmou, na época, que eles estavam presos em uma tribo local, que exigia resgate para a libertação dos reféns.

– Os homens tribais venderam os três sequestrados para elementos da organização Al Qaeda e foram transferidos para a província de Bayda (no sul). Há negociações para pagar o resgate e libertá-los – disse uma autoridade à Reuters.

Presidente do Iêmen, Abd-Rabbu Mansour Hadi, disse na véspera que os três ocidentais foram sequestrados por “grupos terroristas”, segundo a agência iemenita de notícias Saba. “Os comentários de Hadi foram feitos durante uma reunião com embaixadores da Finlândia e Áustria”, noticiou a Saba. O sequestro de ocidentais ocorre vez por outra no Iêmen, na maior parte das vezes por nativos tribais que buscam vantagens em disputas com as autoridades ou com militantes da Al Qaeda e seus simpatizantes. A falta de leis no país da Península Árabe alarmou seus vizinhos, como o principal exportador de petróleo Arábia Saudita, e os Estados Unidos, que veem o Iêmem como uma das frentes de batalha na luta contra a Al Qaeda e seus afiliados.

Guerra no Mali

A situação de confronto entre o Ocidente e forças ligadas a grupos radicais islâmicos se estende ao Mali, onde o conflito já enviou quase 150 mil pessoas aos países vizinhos, segundo a Acnur, agência da ONU para os refugiados. Também há cerca de 230 mil deslocados de suas casas, dentro do país. Segundo o escritório de Assuntos Humanitários da ONU, os refugiados estão na Mauritânia (54.100), em Níger (50 mil), em Burkina Faso (38.800) e na Argélia (1.500).

O Programa Mundial de Alimentos, que atua no Mali por intermédio de ONGs, afirmou que faltam US$ 129 mil para atender a essas necessidades. A França manteve os ataques aéreos contra rebeldes islâmicos no Mali nesta terça, em meio a preocupações de que atrasos no envio de tropas africanas possam colocar em risco uma missão mais ampla para desalojar a rede terrorista da Al-Qaeda e seus aliados na região.

O governo socialista da França já enviou centenas de soldados ao Mali e realizou ataques aéreos diários desde sexta-feira em uma vasta região do deserto que foi ocupada no ano passado por uma aliança islâmica que combina o braço da Al-Qaeda no Norte da África, AQIM, com grupos rebeldes originários do Mali, o Mujwa e Ansar Dine. Potências ocidentais e regionais consideram a possibilidade de insurgentes usarem o norte do Mali como plataforma para ataques internacionais. A ameaça foi publicada aqui no Correio do Brasil, nesta segunda-feira.

Chefes de Defesa da África Ocidental reuniram-se, nesta terça-feira, em Bamako para aprovar planos a fim de agilizar o envio de 3,3 mil homens da região, conforme prevê um plano de intervenção apoiado pela ONU, que deve ser liderado por africanos. Falando de uma base militar francesa em Abu Dhabi, no início de uma visita aos Emirados Árabes Unidos, o presidente da França, François Hollande, disse que as forças francesas no Mali desde sexta-feira realizaram ataques noturnos “que atingiram seus alvos”.

O chanceler francês, Laurent Fabius, que acompanha Hollande na visita em que a França espera fechar a venda de 60 caças Rafale aos Emirados, disse que os países do
Golfo Pérsico também podem participar da campanha no Mali. Fabius acrescentou que haverá um encontro de doadores para a operação no Mali, provavelmente em Addia Ababa, no final de janeiro.

O norte do Mali caiu sob controle islâmico depois de um golpe militar em março de 2012, desencadeado por uma ofensiva de rebeldes tuaregues que tomou conta do norte
do país e o dividiu em dois. Na sexta-feira, a França informou que sua intervenção militar, iniciada a pedido do governo local, vai durar enquanto for necessário para dispersar os rebeldes islâmicos. Paris também pediu pressa aos países africanos na mobilização de uma força regional de apoio ao Exército malinês, conforme prevê a resolução 2.085 do Conselho.

A força africana, chamada Afisma, deve ter 3,3 mil soldados de países da África Ocidental, com apoio logístico, financeiro e de inteligência de países ocidentais. O plano
original, no entanto, era de que essa força estivesse instalada apenas em setembro, para dar tempo aos preparativos.

– A resolução 2.085 foi atropelada pelos fatos no fim de semana, conforme vocês viram, mas a disposição se mantém – disse Del Buey.

Guerrilha armada

A Frente de Libertação do Norte do Mali – FLNM – é composta de três principais grupos de milícias na região: duas milícias Songhai, Ganda Koy e Ganda Izo, bem como de combatentes sob o comando do coronel tuaregue do exército, El Hadji Gamou. A FLNM foi criada em Maio para contrapor a conquista por rebeldes tuaregues e militantes islamistas do norte do país depois do caótico golpe militar em Bamako, em 22 de Março.

Idrissa Fall, do serviço francês da agência de informações Voz da América – uma extensão do governo norte-americano na África – entrevistou o chefe militar da Frente de Libertação do Norte do Mali, El Kahedi Cissé, na cidade de Gao. Ele disse que levaram a cabo dois ataques com sucesso contra militantes islamistas, e que recorrerão a métodos de guerrilha que chama de estratégia “1 contra 10” na luta contra os seus adversários, que estão armados com artilharia pesada, lança-granadas e outros equipamentos pesados.

Cissé adiantou que o seu grupo prevê intensificar os ataques, com o objetivo de liberar o norte do Mali, ao longo dos próximos meses, e que continuarão ativos até que a região se veja livre da ocupação. O exército maliano tem dificuldades em se reorganizar depois do golpe de Março. O futuro do governo civil em Bamako continua incerto. Os presidentes dos países da região deram início a negociações separadas com as duas forças de ocupação e tentavam formular planos para uma intervenção regional no caso de uma falha no acordo.

Ivan Guichaoua um especialista em movimentos rebeldes tuaregues, a serviço do Ocidente, diz haver duas vias para a interpretação da recentemente criada FLNM.

– Primeiro, são pessoas ávidas para lutar, não apenas para assinalar que estão contentes em armar-se, se alguém quiser lhes fornecer armas. Segundo, pode ter a ver com o fato de terem recebido algum apoio a ponto de tornarem-se operacionais. Mas, até o momento, não tem havido nenhuma evolução nessas frentes. E pode-se ver claramente que existem projetos de contra-insurreição através das milícias. Poderá ser uma mudança não muito bem acolhida para o atual conflito que poderá basicamente tornar-se uma guerra tribal – avaliou.

O acordo de paz que pôs fim a rebelião tuaregue em 1990 foi contestado, por outros grupos no norte que se sentiram excluídos, e que agora, como último recurso, podem recorrer a violência.

– Houve uma mudança em 1990. A rebelião liderada pelos tuaregues transformou-se numa terrível guerra tribal entre os grupos tuaregues – alguns leais a Bamako, outros
ainda contestatários da hegemonia de Bamako – e os grupos não tuaregues, particularmente o Ganda Koy – relata.

Segundo ainda esse interlocutor, os Ganda Koy são conhecidos pela sua extrema violência e abusos dos direitos humanos, incluindo assassinatos de civis. O certo é que enquanto aumenta o desespero nas cidades do norte, muitos residentes já saíram a rua para repetidamente protestarem contra as forças de ocupação.