Atraso de salários faz hospital suspender cirurgias em Natal

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Publicado quinta-feira, 8 de maio de 2003 as 15:39, por: cdb

O Hospital Maria Alice Fernandes, no Parque dos Coqueiros, suspenderá todas as cirurgias a partir do próximo sábado. A decisão é reflexo da paralisação da Cooperativa dos Anestesiologistas, que está com dois meses de atraso nos salários e também ameaça parar suas atividades.

Com um débito de R$ 1,9 milhão e sem estoque de medicamento, as transferências de pacientes para internação no hospital também não serão mais aceitas. Os funcionários estão com os salários atrasados há três meses e as cooperativas de médicos intensivistas e anestesiologistas há dois meses.

Novas internações passarão por um rigoroso processo de restrição. Para o diretor geral da unidade, Everton Dutra, não é possível internar se não há medicamento para tratar o paciente. “Chegamos ao colapso, só temos estoque até segunda-feira”.

A crise financeira da unidade é atribuída ao atraso no repasse da Secretaria Estadual de Saúde. Everton Dutra disse que a Pró Saúde, empresa que administra o hospital, não recebeu nenhum repasse este ano. “Estamos com janeiro, fevereiro, março e abril em atraso.” Ele lembrou que o último repasse aconteceu no dia 24 de dezembro, quando a Secretaria Estadual de Saúde pagou R$ 657 mil referentes a “restos a pagar”.

Mensalmente, a Pró-Saúde deveria receber R$ 695 mil brutos. Descontados os R$ 40 mil do pagamento de funcionários do Estado que trabalham no Maria Alice e os tributos, chegam aos cofres da empresa R$ 633 mil para pagamento de funcionários próprios, equipamento e material.

Everton Dutra comentou que oficializará o “colapso” na unidade e a paralisação das cirurgias ao Conselho Regional de Medicina, Ministério Público e Sindicato dos Médicos.

– Vamos também comunicar às secretarias municipais do interior que não aceitaremos mais internações -, detalhou o diretor.

Um dos setores mais prejudicados com a “restrição” de internação será a Unidade de Terapia Intensiva, que possui cinco leitos.

– Não podemos manter pacientes na UTI se não temos medicamento. A restrição é até um cuidado com o paciente.

Everton Dutra lembrou que no último dia 29, o diretor operacional da Pró-Saúde, Diney José Lago Júnior, enviou um comunicado ao secretário estadual de Saúde, Ivis Bezerra, alertando para os problemas que seriam gerados pelo atraso no pagamento.

“Diante do gravíssimo quadro de déficit financeiro que o hospital se encontra, solicitamos que V. Exa., tome pontuais, enérgicas e eficazes providências”, diz o comunicado.

Os números do Hospital Maria Alice Fernandes dão uma mostra do trabalho realizado pela unidade. Diariamente, são 200 atendimentos ambulatoriais e outros 300 no pronto-socorro. Por mês, são 268 internações. A unidade recebe muitos pacientes transferidos do interior. No ano passado foram 648 atendimentos.

O secretário estadual de Saúde, Ivis Bezerra, assegurou que nesta quinta-feira será pago o débito referente ao mês de fevereiro. “Como pagamos adiantado, o mês de janeiro já foi pago em dezembro”. Ele acrescentou que na próxima semana deverá ser feito o pagamento do trabalho do mês de março.

Ivis Bezerra explicou ainda que o atraso no pagamento da empresa Pró-Saúde aconteceu pela necessidade de se fazer o aditivo do contrato. Por causa do reajuste previsto para o início deste ano o processo teve que enfrentar o trâmite burocrático, passando pela Controladoria, Procuradoria e Consultoria do Estado. “Foram mais de 90 dias de trâmite”. E depois de tudo concluído, o pagamento ainda não foi efetuado porque a previsão orçamentária não tinha sido realizada. Diante desse quadro houve a necessidade de se fazer uma suplementação da verba da saúde para poder pagar a empresa Pró-Saúde.

Sobre a paralisação no atendimento a partir do próximo sábado, Ivis Bezerra disse que nada poderia fazer. “Eles são independentes e param quando querem”, reagiu o secretário.