Atentados terroristas aos Estados Unidos

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Publicado quarta-feira, 12 de setembro de 2001 as 15:04, por: cdb

Os ataques ocorridos na manhã desta terça-feira nos Estados Unidos são de extrema gravidade, capazes de gerar uma crise internacional e, mesmo, uma guerra. É necessário que as pessoas inteligentes contribuam para manter a irracionalidade coletiva dentro de limites. Todos vão pedir vingança, mas contra quem? Trata-se da materialização de filmes americanos, desde A guerra dos mundos, de Orson Welles, nas vésperas da Segunda Guerra Mundial. Quando algo desta natureza acontece, é preciso, antes de buscar as respostas, fazer as perguntas adequadas: como algo assim pode ocorrer e, especialmente, a quem interessaria, considerando a reação que virá?

Primeiro, o mundo vive uma crise econômico-financeira, com a recessão e a instabilidade se instalando em todos os países. Neste contexto, a maior potência do mundo empossa o segundo colocado nas eleições, George W. Bush, que, uma vez no poder, age com indiferença até em relação aos seus aliados. Foi capaz de rejeitar unilateralmente o protocolo de Kyoto, quando o mundo vive uma ameaça ambiental sem precedentes, e de lançar uma nova corrida armamentista, com o escudo antimísseis, recriando uma guerra fria.

Em segundo, há no Oriente Médio, um levante de uma ano, com as negociações de paz bloqueadas entre Israel e os Palestinos. Os “falcões” falam mais alto entre os palestinos, e o primeiro-ministro Sharon é um inimigo declarado do processo de paz. Repressões e atentados se sucedem, num banho de sangue sem fim. E os EUA, que são aliados de Israel e das monarquias petrolíferas árabes, simplesmente não tem uma política positiva para a região, colocando-se numa posição de omissão que desagrada aos dois lados.

Há também o regime afegão dos Talibãs, que os EUA, Paquistão e Arábia Saudita apoiaram, e que agora se volta contra os EUA. Ontem (10/9), o líder da oposição anti-Talibã sofreu um atentado, enquanto o regime de Kabul, paralelamente, propunha a troca de prisioneiros de ONG´s ocidentais por um terrorista preso nos EUA. Osman Bin Laden, um multimilionário saudita e fandamentalista que vive no Afeganistão, estaria entre os mentores de anterior ataque ao World Trade Center e a embaixadas americanas na África, tendo ameaçado constantemente os EUA.

Mas a lista de inimigos que Washington fez no mundo é interminável, e o que foi atacado foram símbolos da civilização e do poder econômico e militar americano. Certamente pequenos grupos terroristas que agem no Oriente Médio não teriam logística suficiente para isto, que foi uma operação gigantesca, envolvendo centenas ou até milhares de pessoas. Como os serviços de inteligência não detectaram os preparativos para uma operação desta magnitude? Há muito mistério no ar… Já há comparações com o incêndio do Reichstag, que ocorreu logo após os nazistas assumirem o poder.

É fundamental que o terrorismo (de grupos clandestinos e de Estados), que está se convertendo numa prática internacional, seja condenado com vigor no mundo todo, e que seja feito um chamamento planetário a favor da paz, porque agora ela está perigosamente ameaçada. Por outro lado, os focos de tensão internacional precisam ser debelados, com negociações que produzam resultados concretos. Quando pessoas se oferecem para morrer por uma causa é porque um limite já foi ultrapassado. E o que o atentado mostrou é que ninguém, em nenhuma parte do mundo, está mais a salvo. Portanto, num mundo realmente globalizado, não existe mais “problemas dos outros”. Seria muito fácil condenar o “fanatismo” abstratamente, desconsiderando as causas que levam as pessoas a isto. Mas isto não leva a nada; somente produz mais histeria e uma visão simplista dos problemas mundiais. O mundo do pós-guerra fria, ao contrário do que muitos analistas afirmaram, é estruturalmente instável. O cenário internacional, literalmente “privatizado”, é hoje um excelente campo de ação para grupos de todo tipo, muita vezes confusos, mal orientados ou manipulados. O irracional, num quadro de crise, ganha autonomia.