Atentados políticos retornam ao Líbano

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Publicado terça-feira, 23 de outubro de 2012 as 11:11, por: cdb

Desde que a revolução síria se transformou em guerra civil, parecia um questão de tempo até que o Líbano fosse contagiado pela instabilidade regional  

23/10/2012

Mónica Prieto,

Periodismo Humano    

 

   

Civis são atingidos por recentes atentados no Líbano – Fotos: 

Mónica G. Prieto/periodismohumano.com

   

O “país do cedro” resistiu, apesar da frustração e da radicalidade de pró-sírios e antissírios libaneses, à divisão social que impede a normalidade há anos. Acusavam-se uns aos outros de estar do lado inimigo, fazendo a crise síria um pouco sua. Não em vão os vínculos históricos entre ambos países são tão estreitos que não é possível compreendê-los separadamente.        

Mas desde o último atentado ocorrido em 19 de outubro, que acabou com a vida do general Wissam Hassan e outras sete pessoas, a ficção foi quebrada em pedaços. Os atentados que saíram da cena libanesa em 2008 regressaram ao país árabe, e a eleição de seu primeiro objetivo não poderia ser mais significativa. Hassan, que foi chefe de Segurança do ex-primeiro ministro Rafic Hariri (falecido também em um atentado em 2005), era o responsável da Inteligência das ISF, as Forças Internas de Segurança (Polícia). Era também um importante “antissírio”, um homem do 14 de Março, o bloco sunita, hoje na oposição, que conseguiu a expulsão de Damasco após 29 anos de ocupação militar.     

Há apenas algumas semanas, seu nome se cobriu de glória após a detenção do ex-ministro de Informação Michel Samaga, próximo a Damasco, detido após ser encontrado portando um considerável volume de explosivos e com a intenção, confessa, de retomar os atentados no Líbano por ordem da Síria. Seu advogado nunca pediu que as acusações fossem desmentidas, e nenhum dos aliados políticos de Samara se interessou por elas, o que faz pensar que sua implicação no complô terrorista era inegável.   

Seria o último grande êxito do general, que já havia perdido dois homens em atentados anteriores, os comandantes Samir Shehadeh e Wissam Eid (este último por causa de parte da investigação do assassinato de Hariri) mas que não pôde sobreviver a seu próprio atentado. O carro bomba explodiu em Ashrafiyeh, a área cristã de Beirute: mais concretamente a 500 metros da Praça Sassine, o coração da cidade.   

Na hora do atentado, 10 minutos antes das 15h, as crianças saíam dos colégios e muitos trabalhadores regressavam a suas casas. Houve quase uma centena de feridos. A envergadura da explosão foi inegável: os danos materiais atingiram uns 150 metros de distância. Vários carros, e restos do carro bomba, cuja carcaça se deitava sobre outro automóvel, produziam chamas que alcançaram o terceiro piso de um edifício próximo em construção.    

Do edifício danificado – a fachada havia desaparecido, convertida em escombros e pó – saíram pessoas feridas com e sem ajuda de socorristas e policiais; alguns em estado de histeria, outros silenciosamente chocados. Muitas pessoas queriam atravessar o cordão policial em busca de seus entes queridos, outras saltavam rumo aos escombros para retirar as vítimas.       

“Levamos 42 anos vivendo aqui e não recordamos nada igual desde a explosão contra a sede das Kataeb”, explicava, trêmula, uma moradora. Ela se referia ao atentado em 1982, que matou o então presidente do Líbano e líder das Falanges Libanesas, Bashir Gemayel. O atentado anterior à sede se encontra a apenas 300 metros do atual. Aquele ataque decidiu o curso da guerra civil, e o atual pode terminar com a relativa estabilidade de que gozava o Líbano.    

Culpa  

A metade da sociedade libanesa, próxima à organização do 8 de Março (coalizão pró-Síria no Líbano) culpa a Israel ou as células salafistas que atuam no país; a outra metade aponta Damasco. Desde o princípio da insurreição síria, se temia que Bashar Assad poderia desestabilizar o Líbano para combater a pressão contra seu regime. Seja como for, a população do Líbano, no tabuleiro do jogo de interesses regionais, sempre sairá perdendo. 

 

Tradução: Eduardo Sales de Lima