Atentados na Venezuela acirram ânimos entre governo e oposição

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Publicado quarta-feira, 26 de fevereiro de 2003 as 15:15, por: cdb

As duas explosões registradas na madrugada de terça-feira nas proximidades da embaixada da Espanha e do consulado da Colômbia, em Caracas, causaram ferimentos leves por cortes de cristais em três pessoas, e dispararam uma série de acusações mútuas entre um governo que nada tem a ganhar com atentados, e uma oposição na qual ainda militam setores desesperados por tirar, de qualquer forma, o governo constitucional do poder.

As explosões ocorreram entre 1:55h e 2:20h da madrugada e produziram danos materiais em locais próximos, além de destroçar alguns veículos estacionados nos arredores. A porta do estacionamento da Agência Espanhola de Cooperação Internacional e Ibero-americana, vizinha da embaixada, foi danificada. O consulado colombiano tinha sido atacado há alguns anos num confuso episodio que jamais foi esclarecido.

Segundo o opositor prefeito do município Chacao, Leopoldo López, no local foram encontrados panfletos de uma desconhecida Força Bolivariana de Libertação, além de algumas Milícias Urbanas. Avaliações preliminares apontaram o uso de explosivo plástico C-4 nos atentados.

Enquanto isso, a facção oficialista no Parlamento culpou “setores golpistas” de terem realizado os atentados terroristas, com o fim de isolar a Venezuela no contexto exterior e desestabilizar a situação política. Os parlamentares listaram uma série de antecedentes para validar essa hipótese: assalto a embaixada de Cuba dia 12 de abril de 2002, além das agressões nos escritórios da Líbia, Argélia e Brasil na Venezuela no final do ano passado, e atribuem a autoria dos atos “de terror”,
aos setores golpistas. Entre os atos, também figura a “sabotagem petroleira”, a fim de afastar a Venezuela da comunidade internacional.

Dirigentes opositores quiseram apontar nas palavras do presidente Hugo Chávez o motivo dos atentados. No último fim de semana, numa ofensiva “surpresa”, os Estados Unidos acusaram Chávez de usar uma retórica “inflamatória” que poderia contribuir para a violência na Venezuela, depois que o dirigente acusou os governos dos EUA, Colômbia e Espanha de intromissão em assuntos internos.

Chávez acusou os Estados Unidos e a Espanha de se aliar a seus inimigos, e advertiu a Colômbia de que poderia romper relações diplomáticas, após os questionamentos aos governos de Caracas e Brasília, realizados pelo ministro colombiano do Interior e Justiça, Fernando Londoño.

O Vice-presidente José Vicente Rangel anunciou ao meio dia de hoje, que efetuará um dispositivo antiterrorista para enfrentar todas as ameaças de atentados “venham de onde vierem” e decidiu estabelecer medidas especiais de segurança para o corpo diplomático no país e nas sedes das embaixadas. Rangel demonstrou condenar extremamente os ataques.

*Presidente da Associação Latino-americana para a Comunicação Social, diretor do jornal mensal Question con Le Monde Diplomatique.