Assessor de Lula aponta imprensa como partido de oposição venezuelano

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Publicado sexta-feira, 20 de dezembro de 2002 as 18:14, por: cdb

Marco Aurélio Garcia, assessor de relações internacionais do presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva, disse nesta sexta-feira estar impressionado com o papel que os meios de comunicação prestam à crise da Venezuela, atuando como um verdadeiro partido de oposição. Garcia, enviado por Lula para tentar mediar a crise venezuelana entre governo e oposição, concedeu entrevista, por telefone, para o programa “Bom Dia Brasil”, da TV Globo. Ele disse que apesar da situação na Venezuela ser de normalidade democrática, o país vive uma situação de impasse.

Leia os principais trechos da entrevista.

O contato com o presidente Hugo Chávez

“Fez parte de uma série de contatos que mantive e que começou com o encontro com o ministro das Relações Exteriores da Venezuela, Roy Chaderton Matos, com o vice-presidente do país, José Vicente Rangel, um encontro de meia hora com o presidente Hugo Chávez e, à tarde, um encontro com o secretário-geral da Organização dos Estados Americanos (OEA), César Gavíria. Finalmente houve um jantar com o presidente Chávez, do qual participou o embaixador brasileiro na Venezuela. O país vive uma crise, há um lockout da empresa petroleira, cujos técnicos decidiram ficar contra o governo Chávez. Isso cria complicações muito grandes pois as atividades do setor petroleiro são muito importantes para a Venezuela. Agora, o que é atualmente impressionante é ver os meios de comunicação venezuelanos, que se transformaram num verdadeiro partido político contra o presidente Chávez, transmitindo informações de líderes da oposição contra o governo.”

Sobre as negociações

“O problema é que as condições que a oposição colocam são draconianas. Eles querem a renúncia do presidente. E Chávez foi eleito democraticamente, está com a Constituição do seu lado. O próprio secretário-geral da OEA (Gavíria) me disse ontem que a Venezuela vive uma situação absolutamente democrática. Há um setor muito importante da população que sustenta o presidente Chávez. Há uma situação de impasse.”

Sobre o eventual encontro com representantes da oposição
“Vou hoje ter um encontro, após consultar o governo, com o coordenador dos representantes da oposição, na chancelaria brasileira. Provavelmente vou me encontrar com os presidentes dos partidos Ação Democrática e Democracia Cristã, o Copei, para descobrir as margens de negociação. Para haver eleições imediatamente há duas possibilidades. A primeira é a renúncia do presidente, que não quer renunciar e está no seu direito. A segunda, é o referendo, que pela Constituição, só pode ocorrer em agosto de 2003. A oposição quer uma solução imediata, que passa por um terceiro formato, que seria uma reforma constitucional, que estabeleceria a possibilidade de se anteciparem as eleições. Mas muitos observadores dizem que se houver eleições, o presidente Chávez ganharia. Então, seria uma série de negociações complexas. Há um tema essencial que é o dos meios de comunicação. Os brasileiros não têm idéia da utilização política dos meios de comunicação, que estão articulados com a oposição.”

Sobre a possibilidade do novo governo brasileiro ajudar na resolução da crise
“Não se trata de ter nenhuma proposta de intervenção. A instância que discute essa questão é a OEA, que tem o papel de facilitadora nas negociações. Com o que temos de nos preocupar é com a situação brasileira, mas queremos ver de que modo podemos ajudar. O atual governo brasileiro tem se comportado bem nessa crise.”

Sobre a possível visita de Garcia à Argentina

“Creio que não seja o caso. São problemas igualmente graves, mas de naturezas opostas. Os argentinos estão, eles próprios, definindo o calendário eleitoral, que deve ocorrer em maio do ano que vem. O debate transcorre normalmente, enquanto a Venezuela é um caso de impasse. Acredito que os próximos três dias serão decisivos. Veremos qual é o volume dessa greve”.