Assassinato ‘em defesa da honra’ é condenado na Alemanha

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado quinta-feira, 13 de abril de 2006 as 12:42, por: cdb

A Justiça alemã condenou, nesta quinta-feira, a nove anos de prisão, um homem de origem turca pelo chamado “assassinato em defesa da honra” de sua irmã, mas inocentou dois outros irmãos de conspirar para cometer o crime. O assassinato de Hatun Surucu, 23, atingida por tiros quando esperava por um ônibus em Berlim, no ano passado, chocou a Alemanha e detonou um acalorado debate sobre a conservadora comunidade muçulmana em choque com os valores dominantes no país.

Obrigada a se casar com um primo na Turquia quando era nova, Hatun Surucu dissolveu sua família turco-curda em Berlim, mais tarde, e vivia de forma independente com o filho de cinco anos. A situação dela era criticada pela família de forma enérgica, afirmou a promotoria. Ayhan Surucu, que confessou ter puxado o gatilho, foi condenado a nove anos e três meses de prisão, uma pena próxima do máximo de dez anos permitido já que o réu era menor de idade à época do assassinato.

Os irmãos mais velhos dele, Mutlu e Alpaslan, acusados de ajudá-lo no assassinato, foram inocentados. A indignação da opinião pública aumentou quando garotos de uma escola de Berlim, na qual há muitos alunos de famílias de imigrantes, teriam aplaudido abertamente o assassinato porque a vítima “vivia como uma alemã”. O caso adicionou lenha à discussão sobre os descendentes dos “trabalhadores convidados”, em sua maioria turcos e cuja presença na Alemanha ajudou o país a realizar o “milagre econômico” do pós-guerra. Esses trabalhadores, porém, continuam em muitos aspectos sendo estrangeiros dentro do território alemão.

Esse foi um dos muitos incidentes que alimentaram a preocupação com a possibilidade de a maior comunidade de imigrantes da Alemanha, muitos dos quais sem trabalho, com baixo nível de escolaridade e sem cidadania alemã, estarem se afastando cada vez mais do restante do país.

Outros valores

Quando detalhes do caso Surucu vieram à tona no ano passado, abriu-se uma janela para um mundo cujos valores são totalmente avessos à maioria dos alemães, que se vêem, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, como uma sociedade aberta e tolerante.

– Esse é um ponto de vista que parte do pressuposto de que a suposta integridade moral da mulher deve ser defendida a qualquer custo e que considera a suposta honra de uma família seu valor máximo – disse Eren Unsal, da Federação Turca em Berlim e Brandenburgo, que condenou o assassinato.

Não há dados confiáveis sobre a disseminação desse tipo de crime no país, mas vários “assassinatos em defesa da honra” foram registrados ali nos últimos anos. Alguns conservadores, para quem políticas “multiculturais” supostamente lenientes ignoraram esses abusos nos últimos anos, disseram que imigrantes condenados por crimes sérios deveriam ser expulsos da Alemanha.

– Todos os estrangeiros presentes na Alemanha são instados a aceitar os valores básicos de nossa Constituição – disse Johannes Singhammer, porta-voz do bloco parlamentar da CDU/CSU, atualmente no governo.