As Olimpíadas da desintegração

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Publicado sexta-feira, 17 de junho de 2016 as 12:52, por: cdb

As tramoias mais atuais referem-se a outro tipo de manobras indecorosas, isso é, à figura presidencial que será a inauguradora das Olimpíadas da Desintegração

Por Maria Fernanda Arruda – do Rio de Janeiro:

Mais de um século separam o Rio de Janeiro de Pereira Passos e o Rio de Janeiro de Eduardo Paes. Esses dois momentos de profundas remodelações guardam entre si muitas semelhanças. No final da gestão de Pereira Passos,em 1906, a cidade tinha uma nova roupagem. E agora, com as Olimpíadas, o Rio de Janeiro de Eduardo Paes terá uma cara nova? A partir dos anos 40, com o avanço da arquitetura do concreto armado, a avenida Rio Branco começou a descaracterizar-se arquitetonicamente, a tal ponto que, hoje, poucos edifícios originais estão preservados. Ela ainda é, sem prejuízo disso, uma das artérias mais importantes da cidade, na qual se encontram alguns dos principais escritórios e bancos do Rio de Janeiro. Atualmente, por toda a sua extensão, andam mais de 500.000 pessoas ao dia. Eduardo Paes poderia então apresentar a Pereira Passos o VLT, um projeto da prefeitura do Rio de Janeiro que integra as intervenções da Operação Urbana Porto Maravilha (nele se inclui também o admirável contra senso a que se deu o nome ambicioso de “museu do futuro”).

Maria Fernanda Arruda
Maria Fernanda Arruda

Passos não se preocupou com a expulsão policial dos negros, pouco antes alforriados pela Princesa Isabel, e nem com os imigrantes que não couberam nas casinhas das “colônias” das fazendas de café. Assim como Eduardo Paes não se preocupou com os milhares de desalojados, para que se abrissem espaços para as obras destinadas aos jogos olímpicos. As autoridades que administraram e que administram a cidade nunca a entenderam como “espaços do e para o povo”. Há, entretanto e sem sombra de dúvida, diferenças muito expressivas entre esses dois momentos. Pereira Passos pretendia criar uma modernidade prestigiadora para as elites dirigentes, capazes de dinamismo no mundo dos negócios, ao mesmo tempo amantes da música, das letras e das belas artes.

Paes, pretendeu criar e criou um mundo de negócios e negociatas. Segundo a sua fala, “a Olimpíada é transformadora”, diz enquanto prefeito do Rio. Principal tocador das obras dos Jogos no país, o prefeito argumenta que do total movimentado (R$ 37,6 bilhões), 57% é recurso de Parceria Público Privada (PPP). “Dinheiro de governo é 43%”, ressalta. A Matriz de Responsabilidade, que é tudo aquilo que não seria feito sem a Olimpíada, está orçada em R$ 6,5 bilhões. Basicamente estádios: R$ 632 milhões do município, R$ 1,654 bilhão federal e R$ 4,2 bilhões de recursos privados. O legado chega a R$ 24 bilhões.

Eduardo Paes é o retrato do PMDB que domina o Rio de Janeiro e que fica simbolizado na figura de Jorge Picciani. Quando ingressou na política, pelas mãos do constituinte Marcelo Cerqueira, então no Partido Socialista Brasileiro (PSB), era um produtor rural (mais recentemente, com as pedreiras adquiridas, habilitou-se como fornecedor da brita aplicada nas obras olímpicas). Elegeu-se pela primeira vez em 1990 e reelegeu-se deputado estadual quatro vezes. Presidiu a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro entre 2003 e 2010. Nas quatro vezes em que foi eleito presidente (as votações para a Mesa Diretora ocorrem a cada dois anos), concorreu sozinho à Presidência e teve praticamente a unanimidade dos votos. Na eleição de 2014, candidatou-se novamente para a ALERJ e foi eleito com 76.590 votos (nona maior votação no Estado do Rio e a terceira do PMDB/RJ). Foi novamente eleito presidente da Alerj. Está na lista de proprietários suspeitos de utilizar trabalho escravo em suas fazendas.

Como é sabido, o PT no Rio de Janeiro aceitou-se como partido menor e caudatário do PMDB. Sem prejuízo disso, Picciani apoiou claramente a candidatura de Aécio Neves, a quem fez questão de transformar em figura de destaque maior na cerimônia portentosa de seu casamento. Os Picciani, pai e filho, apoiam agora o golpe contra a presidente Dilma Rousseff, quem, em enorme equívoco, imaginou associar-se ao mais jovem, como caminho para o defenestramento de Eduardo Cunha. Enfim, e o que importa aqui, pode-se desenhar com coerência a pirâmide do Poder que prepara agora os jogos olímpicos: Michel Temer > Pezão > Eduardo Paes > Jorge Picciani > Arthur Nuzman.

Paes
O desastre acontecido na Ciclovia Tim Maia, inaugurada em janeiro, tornou-se o símbolo da incompetência desonesta da gestão do projeto notável

O desastre acontecido na Ciclovia Tim Maia, inaugurada em janeiro, tornou-se o símbolo da incompetência desonesta da gestão do projeto notável. Mas, de longe e muito longe, não é o mais escabroso. Imbatível é o escândalo de Deodoro: as obras foram iniciadas antes de assinado qualquer contrato, em inicio em junho, de 2014. O contrato só foi assinado mais de dois meses depois, o que permitiu a prática de desmandos de todo tipo. Iniciada a apuração policial das irregularidades, encontraram-se centenas de documentos falsificados, guias de transporte de resíduos jamais feitos. Em nota, o consórcio responsável pelas obras, formado pelas empresas Queiroz Galvão e OAS disse que já prestou esclarecimentos às autoridades competentes e que a alteração de custo se deve ao acréscimo de material transportado, que não estava previsto no contrato.

O Parque Olímpico da Barra, por sua vez, terá histórias de Ali Babá e seus quarenta ladrões a contar, e muitas. O empreiteiro Carlos Fernando de Carvalho, cuja empresa Carvalho Hosken está ajudando a construi-lo e já surgiu como a 13ª pessoa mais rica do Brasil, segundo dados da agência de notícias Bloomberg. O bilionário está chamando a atenção com os planos para transformar o parque olímpico em residências para a “elite” após o fim dos jogos. A subcontratada de um consórcio do qual sua empresa faz parte também foi acusada pelo Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro (MPT-RJ) de manter os operários no local em condições de vida precárias. Na reportagem do “The Guardian”, Carvalho disse querer que o Ilha Pura, a vila olímpica que ele está construindo em conjunto com uma unidade da Odebrecht SA, se torne “lar de uma ‘nobre’ elite”, com 3.604 apartamentos de alto padrão e jardins que “só reis tiveram” após os jogos de 2016. Os operários recrutados no Nordeste receberam promessas de moradias gratuitas. Em vez disso, foram fornecidos a eles alojamentos insalubres e depois lhes foi pedido aluguel, segundo um comunicado do MPT. Os procuradores estaduais removeram 11 dos trabalhadores em “condições análogas às de escravidão”, e que vinham sendo mantidos em alojamentos com baratas, ratos e esgoto a céu aberto.

Com toda certeza, os escândalos de um grande trabalho de rapinagem, envolvendo as obras olímpicas, só começarão a aflorar depois dos jogos. De qualquer forma, dispensando-se cuidados e cautelas até elementares, as obras estarão concluídas para a grande festividade de Agosto, superando-se os atrasos ainda evidentes em algumas delas. Os desastres só acontecerão depois e quando já não se puder associá-los ao banditismo de seus executores. Da mesma forma, os escândalos criados pelos não poucoos enriquecimentos ilícitos. Usemos as palavras proféticas de Chico Buarque: “Dormia a nossa Pátria tão distraída, sem perceber que era subtraida em tenebrosas transações”. Hoje inexiste interesse em saber sobre isso. Sabe-se sobre o que é divulgado, e não será a Rede Globo a divulgadora desse mundo de negociatas.

As tramoias mais atuais referem-se a outro tipo de manobras indecorosas, isso é, à figura presidencial que será a inauguradora das Olimpíadas da Desintegração. Quem será ela? A Presidenta eleita democraticamente? Ou o usurpador? E como ela irá se relacionar com o público que estiver no Maracanã? Como no momento temos a presença do usurpador golpista, ficamos livres por enquanto de manifestações, como as que foram promovidas contra a Presidenta de Direito: “não vai ter Copa do Mundo”. Ninguém se dispõe a proclamar: “não vai ter Olimpíada”. Elementar, não é mesmo? Seja quem for, o mais provável é que seja vaiado por um público que vive uma Pátria tão distraída, sem perceber nada .

Até o momento, o interesse do povo é menor. Alguém sabe que o “Símbolo Mascote” está escolhido? quem o escolheu? onde ele pode ser visto e conhecido? Somos novidadeiros, alcoviteiros, superficiais, frutos da deseducação que nos foi oferecida, desde os tempos já imemoriais de uma ditadura aviltadora da inteligência humana. A programação da Rede Globo, mal começa agora a promover a “motivação” de seus seguidores, animada por seus anunciantes, de fato e definitivamente os que fazem, promovem e lucram com os lazeres oferecidos aos que são os “quaisquer do povo”, isso é, os consumidores. Quando se empenhou em ter os jogos olímpicos de 2016 no Brasil, Lula terá imaginado um Brasil alegre e confiante, não terá cogitado sobre um lenitivo, um momento alienante, fazendo deles um intervalo festivo, ao meio de sentimentos de medo e precupação diante dos fantasmas do desemprego gerado pela crise econômica que alimenta o lucro do sistema financeiro. Os atletas que competiam em Olímpia participavam de uma homenagem aos deuses e à paz. Não usavam Addidas, apenas a felicidade de estarem nus e fazendo parte dos jogos. Não tinham patrocinadores, ganhavam coroas de louros. O ideal olímpico, renascido com uma nova era, foi se transformando com certeza, pelos interesses e negócios que se apossaram dele. Mantém-se vivo em alguns milhares de atletas animados pelo desejo de participar de uma Olimpíada, sabendo que nessa participação eles terão o prêmio que não será reconhecido em nenhuma medalha. Em respeito a eles, que sejam então realizados os jogos olímpicos.

Maria Fernanda Arruda é escritora, midiativista e colunista do Correio do Brasil, sempre às sextas-feiras.