As mentiras que os EUA contam

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Publicado sexta-feira, 18 de abril de 2003 as 15:06, por: cdb

Primeiro mísseis americanos atingiram o correspondente da Al Jazeera e seu cinegrafista. Depois -num intervalo de quatro horas- os EUA atacaram o escritório da Reuters, em Bagdá, e atingiram um de seus câmeras, pai de uma criança de oito anos, além de outros integrantes da equipe e um cinegrafista do canal espanhol Telecinco.
É possível acreditar que isso tenha sido um acidente? Ou é possível que a palavra certa para as mortes decorrentes desses ataques seja assassinato?

Não são, obviamente, as primeiras mortes de jornalistas na invasão anglo-americana do Iraque. Tampouco podemos nos esquecer dos civis iraquianos que estão sendo mortos e mutilados às centenas e que -diferentemente dos convidados jornalistas- não podem deixar o país e voar para casa de classe executiva.

Ou seja que os fatos de ontem devem falar por si. Infelizmente para os americanos, tudo o que aconteceu se parece muito com assassinato.
Vejamos o míssil que atingiu a sede da Al Jazeera às margens do rio Tigre. O correspondente da rede de televisão, um jordaniano-palestino chamado Tareq Ayyoub, estava no topo do prédio com seu segundo cinegrafista, um iraquiano chamado Zuheir, registrando uma batalha que ocorria entre tropas norte-americanas e iraquianas.

Como Maher Abdullah, colega de Ayyoub, contaria mais tarde, “o avião voava tão baixo que pensávamos que pousaria no topo do prédio. Foi um ataque direto -o míssil chegou a explodir contra o nosso gerador”.
Agora resta aos americanos o problema de explicar isso. Em 2001, os Estados Unidos atingiram com um míssil o escritório da Al Jazeera em Cabul, no Afeganistão -de onde vídeos de Osama bin Laden ganharam exibição para todo o mundo. Explicações nunca foram dadas.

Mais perturbador, no entanto, é o fato de que a Al Jazeera -a rede de televisão árabe independente, que conseguiu despertar a fúria de autoridades norte-americanas e iraquianas por sua cobertura ao vivo da guerra- havia informado ao Pentágono as coordenadas de seu escritório em Bagdá há dois meses e recebeu a garantia de que o local não seria atingido.

O ataque seguinte veio logo depois, quando um tanque Abrams apontou seu canhão em direção ao hotel Palestine, onde jornalistas estrangeiros estão hospedados na capital iraquiana.

A munição explodiu entre a equipe da agência de notícias Reuters e atingiu o cinegrafista ucraniano Taras Protsyuk, o britânico Paul Pasquale e dois outros jornalistas, incluindo a repórter libanesa-palestina Samia Nakhoul, além de José Couso, do canal espanhol Telecinco.

Os americanos se justificam com o que todas as evidências provam ser uma clara mentira. O general Bufford Blount, da 3ª Divisão de Infantaria, afirmou que seus veículos estavam sob fogo de francos-atiradores instalados no hotel Palestine.

O testemunho do general não é verdadeiro. Eu estava passando por uma rua entre os tanques e o hotel no momento em que ele foi atingido -e não havia nenhum tiroteio.

Algo de muito perigoso parece haver pairado ontem. Há alguma lição que os jornalistas devem reter disso? Há algum setor das forças militares norte-americanas que passou a odiar a imprensa e quer tirar do caminho jornalistas em Bagdá, ferindo aqueles a quem nosso próprio (britânico) ministro do Interior, David Blunkett, maliciosamente afirmou estar trabalhando “atrás das linhas inimigas”?
Eu conheci Tareq Ayyoub. Disse-lhe o quão fácil esse escritório de Bagdá seria, como alvo, para os americanos, se eles quisessem destruir a cobertura que faziam -vista em todo o mundo árabe-, com imagens das vítimas civis dos bombardeios.

Taras Protsyuk dividia por vezes o elevador inacreditavelmente lento do hotel Palestine comigo. Samia, aos 42 anos, é uma amiga desde a guerra civil libanesa entre 1975 e 1990. Ontem à tarde, estava coberta de sangue, num hospital de Bagdá.

E o general Blount insinua que essa mulher e seus bravos colegas eram francos-atiradores. O que isso, me pergunto, nos diz sobre a guerra no Iraque?