As divisões da Europa unificada

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Publicado quinta-feira, 13 de novembro de 2003 as 00:26, por: cdb

A Europa que recebe o II Fórum Social Europeu é um continente muito mais dividido do que foi no passado, antes da sua unificação. A própria segunda guerra do Iraque revelou o tamanho dessa divisão, com os governos da Franca, da Alemanha e da Bélgica divergindo de Washington, enquanto a Grã-Bretanha liderava uma frente quantitativamente majoritária de apoio ao governo Bush.

Mesmo em relação à unificação a Grã-Bretanha se mantém fora, e a recente rejeição no referendo da Dinamarca reforça a resistência de um governo Blair enfraquecido a encarar um passo que encontra dificuldades para unificar o quadro político interno, em parte temeroso – há quem alegue que lutaram duas guerras para não se submeter à Alemanha e agora o fariam sem lutar – e em parte tendente a acentuar a proximidade com os EUA e a área do dólar.

As maiores divisões, no entanto, se dão no plano social. Os Estados de bem-estar social construídos no segundo pós-guerra foram sendo minados por políticas liberais por parte de governos de diferentes origens ideológicas, incluídos os socialistas franceses e espanhóis, diminuindo o papel de contraponto que o Estado tinha em relação às desigualdades produzidas pelo mercado. A concentração de renda aumentou, porém o maior fenômeno a acentuá-la foi o aceleramento do processo de imigração – com grandes ondas de trabalhadores vindos, legal e ilegalmente, da África, da Ásia, da América Latina, da Oriente Médio e da Europa Oriental -, que mudou a fisionomia social dos países europeus, especialmente de suas capitais. Grandes franjas de trabalhadores em grande parte desqualificados, assumindo funções que os europeus não estão interessados em assumir, colocaram os maiores desafios sociais para a outrora igualitária sociedade européia, quando primava o pleno emprego. O I Fórum Social Europeu, realizado no ano passado em Florença, encontrava o continente num processo de mobilizações populares contra a guerra – que desembocaram nas maiores manifestações que a Europa já conheceu, nos primeiros meses deste ano -, até que a incapacidade de evitar a guerra levou a um refluxo que se estende até este momento. As manifestações populares ganharam uma conotação nacional, contra medidas dos governos de Blair, de Chirac (França) e de Berlusconi (Itália), em particular, perdendo seu caráter internacionalista, que deve ser retomado na próxima semana com a visita indesejada do presidente norte-americano George Bush a Londres.

A maior incógnita sobre o futuro da Europa é saber que efeitos o contínuo crescimento dos movimentos chamados de ‘altermundistas’ terá sobre a fisionomia de uma esquerda esgotada, envelhecida e impotente para derrotar a direita nos governos da maioria dos países europeus, que apresentam assim outra divisão – talvez a mais aguda: entre opinião publica progressista e governos conservadores. Da resolução desta depende o futuro da Europa e a disposição do continente em seguir sua subordinação aos EUA ou a se aliar a movimentos como o Grupo dos 20, nascido em Cancun, contra a aliança entre Washington e a velha Europa.

Emir Sader, professor da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), é coordenador do Laboratório de Políticas Públicas da Uerj e autor, entre outros, de “A vingança da História” (Boitempo Editorial) e “Século XX – Uma biografia não autorizada” (Editora Fundação Perseu Abramo).