AS AFLIÇÕES DE MR. BUSH

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Publicado segunda-feira, 15 de julho de 2002 as 09:22, por: cdb

OPINIÃO

Mr. Bush não se comove com os tangos de Duhalde. O presidente argentino esgotou o repertório, foi desde “Por una cabeza”, que Al Pacino dançou como se fosse uma canção de amor, mas são apenas reclamações de um apostador para um cavalo, até “Adios muchachos”, mas nem assim arrancou um juro de Mr. Bush. Por que? Terá Mr.Bush um coração de “gangster”, incapaz de um gesto de piedade. Nada disso, até bem pouco tempo, Mr. Bush enxugava uma garrafa de bourbon e depois saía a cantar “Nobody loves me”, pelo seu rancho no Texas.Está certo que ele agora deixou de beber, mas quem já virou três copos na vida, está sempre disposto a emprestar o ombro para um amigo, como pode atestar qualquer barman ao norte do Rio Grande.
O problema e que Mr. Bush tem problemas muito sérios.Nós latino-americanos sempre imaginamos os Estados Unidos como uma gigantesca locomotiva, avançando irresistivelmente em cima de trilhos de aço.Raras vezes nos perguntamos de que se alimenta o monstro.Não é apenas de petróleo, como pensam os ambientalista. Os americanos inventaram o primeiro país que usa dólares como combustível. O señor Duhalde precisa de cinco bilhões para impedir que “Adios pampa mia”, se torne o hino nacional da Argentina.Mr. Bush não liga para cinco miseráveis bilhões porque os Estados Unidos para continuar sendo a nação mais poderosa do mundo necessitam de um bilhão por dia.
Esse dinheiro não vem do Iraque nem do Afeganistão, mas dos investidores. E nós sabemos como são assustados esses malditos investidores. Quando as guerrinhas eram empresariais, os investidores aplaudiam e continuavam comprando ações. Eram guerrinhas baratas, que custavam uma bagatela e davam lucros imensos. Depois faltou compostura ao governo. O Vietnam foi uma calamidade política e financeira. A Guerra do Golfo terminou empate e só deu prejuízo. Ser polícia do mundo não é um cargo remunerado.
Basta dizer que derrubando o World Trade Center, Bin Laden deu um prejuízo de dois trilhões à economia americana. Dois trilhões e o Duhalde chorando lá embaixo por cinco bilhõezinhos.Como se isso não bastasse, os executivos deram de fazer besteira. Onde já se viu dar quatro bilhões de gratificação ou emprestar quatro bi, a juros de 5% ao ano.Não ha mãe branca e protestante em todo o país que faça isso.A parcimônia faz parte dos princípios sagrados da democracia americana. O que vão dizer os acionistas: “Olhem lá, a folga das caras, embolsando o dinheiro dos dividendos”. Pior atitude foi dos super-ricos que trocaram as ações por obras de arte. Rubens é maravilhoso, mas não tem liquidez. É coisa de francês rico pendurar quadro na parede.Mr. Bush ficou tão indignado que foi pessoalmente a Wall Street pedir que os executivos tenham modos.
Mas não é fácil convencer essa gente, que só está a um passo de Al Capone e na maioria das vezes se comporta pior que Lucky Luciano. Enquanto isso o bilhãozinho diário não comparece e o prejuízo já entrou na casa dos três trilhões. Mr. Bush por varias vezes pensou na garrafa e conteve. Mas é inegável que as coisas não andam bem. E como se não bastassem todas as aflições ainda surgem essas noticias da Bolívia e do Brasil. Quem está no telefone? Duhalde? Fuck off!
Sergio Jockymann