Arrogância duradoura

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Publicado segunda-feira, 22 de outubro de 2001 as 19:05, por: cdb

O presidente norte-americano, George W. Bush, segue cada vez mais fundo para o caminho perigoso da discórdia e da injustiça, nestes ataques desnorteados ao solo afegão. Não interessa se foram uma ou cem crianças mortas nos bombardeios ininterruptos das últimas semanas. O que não faz sentido, na verdade, é o ódio incorporado aos artefatos do terror que desabam sobre as cabeças de gente inocente, em um país já devastado durante a tentativa de ocupação pela ex-União Soviética, por duas décadas.

A fome e a miséria de milhões de pessoas naquela região, no entanto, parecem não existir aos olhos dos Estados Unidos, que zombam da seriedade e da preocupação de outras milhões de pessoas ao redor do mundo, ao mandar na ponta de um míssil uma mensagem ao exilado saudita Osama bin Laden, acusado de liderar os insensatos ataques de 11 de setembro a alvos civis e militares nos EUA. Primeiro porque o destinatário em questão está bem protegido. Depois porque a mensagem entregue no endereço errado, como vem acontecendo diariamente naquele país, mata crianças, mães e pais de família, gente que nada tem a ver com o conflito em que foram atirados pela estupidez humana.

A guerra que os EUA anunciaram ao mundo foi contra o terrorismo. E somente por isso estariam aptos a receber o apoio da maioria dos países. Em sã consciência, ninguém pode apoiar o terror como forma de protesto contra as injustiças disseminadas, em grande parte, a partir dos próprios Estados Unidos. Da mesma forma, é impensável permanecer calado diante as cenas de horror que assaltam os lares das famílias todas as noites. Ao invés da liberdade, o que os norte-americanos têm conseguido é mostrar ao mundo a arrogância duradoura de suas ações. O descompasso entre a razão e a prepotência. A distância enorme que separa as intenções das palavras e a crueldade dos gestos.

* Alberto Ahmed é presidente do jornal Povo