Argentinos protestam durante dois dias contra Cavallo

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Publicado quarta-feira, 12 de dezembro de 2001 as 21:32, por: cdb

O centro da capital argentina foi paralisado, nesta quarta-feira, na hora do almoço por milhares de irritados comerciantes, que protestaram contra as medidas de semicongelamento dos depósitos bancários implementadas no dia 3 de dezembro pelo ministro da Economia, Domingo Cavallo.

Ao meio-dia, os comerciantes marcharam até a praça de Mayo, na frente da Casa Rosada, a sede do governo, batendo panelas e tocando as buzinas de seus veículos. Por causa das medidas de Cavallo, nos últimos dez dias as vendas do comércio despencaram entre 50% e 70%.

Buenos Aires também foi agitada pelas manifestações de funcionários públicos, que protestaram na frente dos ministérios. Os estudantes universitários realizaram marchas. À tarde, mais de 4 mil militantes dos sindicatos vinculados à Confederação Geral do Trabalho (CGT) dissidente, acompanhados de aposentados e professores de escolas públicas, manifestaram-se na frente do Congresso Nacional. A jornada de protestos registrou incidentes. De manhã cedo, sete táxis foram queimados na capital argentina. Suspeita-se que seja uma mensagem de alguns setores sindicais para que ninguém drible a greve geral desta quinta.

Na cidade de Córdoba, os protestos começaram de manhã cedo e houve choques com a polícia. Em La Plata, capital da província de Buenos Aires, os funcionários públicos cortaram as principais avenidas da cidade, depois de constatar que seus salários não estavam disponíveis nos caixas eletrônicos. Também em La Plata, um banco foi atingido por um coquetel molotov.

Estava previsto que nesta quarta-feira à noite os comerciantes realizariam um apagão nas principais cidades do país. Além disso, também estava programado um toque de silêncio de 15 minutos, ao longo do qual ninguém utilizaria o telefone.

Já nesta quinta-feira, as três centrais sindicais do país – a Confederação Geral do Trabalho (CGT) oficial, a CGT dissidente e a Central dos Trabalhadores Argentinos vão fazer a sétima greve geral do governo do presidente Fernando De la Rúa. O protesto será contra as medidas de semicongelamento dos depósitos.

Coincidindo com a paralisação dos trabalhadores, o Instituto de Estatísticas e Censos (Indec) anunciará, nesta quinta-feira, o índice oficial de desemprego. Dados preliminares indicam que estaria em 18% – 3,3% a mais do que há um ano. No entanto, diversos analistas sustentam que, na verdade, já estaria em 18,7%.

Nesta quarta-feira, a Peugeot anunciou que, por causa das quedas nas vendas, demitirá um “excedente” de 550 operários da fábrica que possui na província de Buenos Aires.

Mais de 320 mil aposentados que, nesta quarta-feira, foram aos bancos para receber aposentadorias entre US$ 200 e US$ 450, foram informados que o governo ainda não havia enviado o dinheiro para os pagamentos.

Segundo o governo, o pagamento desses aposentados foi adiado para a semana que vem. As pessoas com aposentadoria acima de US$ 2,000, que ainda não receberam o pagamento de novembro, terão de esperar o pagamento só para janeiro.

“De la Rúa quer matar todos os velhos, para ficar com nosso dinheiro”, disse à Agência Estado o aposentado Oscar Quesada, de 82 anos, depois de ter discutido com o funcionário que o atendeu. “O que vou fazer com as contas que tenho que pagar até sexta-feira?”, disse, enquanto se sentava para recuperar-se do desgosto.

O semicongelamento de Cavallo foi a gota d´água de uma seqüência de pacotes que desde março incluíram aumentos de impostos para o consumo e tributos sobre operações financeiras. Estas medidas agravaram a queda das vendas do comércio, já abalado por uma recessão que dura três anos e meio.

Segundo projeções da consultora CCR, as vendas dos produtos de massa teriam tido uma queda, em média, de 10%. Com isto, o comércio perderia US$ 3,48 bilhões em comparação com o que foi faturado no ano passado. Em comparação com 1998, a queda do faturamento foi de US$ 10,1 bilhões.

Os produtos não-alimentícios foram os mais atingidos, segundo projeções da C