Argentina vive momento de tensão, entre piquetes e eleições

Arquivado em: Arquivo-CdB
Publicado sábado, 19 de abril de 2003 as 11:20, por: cdb

Quarta-feira, 16 de abril, 11 horas da manhã. O MTD (Movimento de Trabalhadores Desocupados) Aníbal Verón, o MTR (Movimento Teresa Rodríguez), a CCC (Corrente Classista e Combativa) e vários outros movimentos piqueteiros atravessaram a Ponte Pueyrredon e, depois das 14h30min, puseram-se em marcha à Casa da Província de Salta, para se unirem, na Praça de Maio, ao Bloco Piqueteiro Nacional (integrado pelo Pólo Operário, pelo Movimento Territorial Libertação, pelo Movimento Teresa Vive, entre outros), à Coordenadora de Trabalhadores Desocupados, Aníbal Verón, e às Mães da Praça de Maio, reclamando a libertação dos 4 piqueteiros de Salta, detidos no dia 9 de abril. As mobilizações – parte de um plano de luta nacional – confluíram para o centro portenho, reunindo mais de 10 mil manifestantes.

Os juízes saltenhos, que respondem pelas diretivas do governador Romero – candidato a vice-presidente nas próximas eleições junto a Menem – anularam a libertação dos piqueteiros detidos: “Pepino” Fernández, “Piquete” Ruiz, Juan Nievas e Claudio Fernández. A advogada Myriam Bregman do CEPRODH (Centro de Profissionais pelos Direitos Humanos) explicou que “a resolução judicial é uma aberração, porque os mantém presos por terem participado de cortes de estradas anteriores, e argumenta que o faz para garantir a tranqüilidade do processo eleitoral”.

Um pronunciamento do MTD de Solano diz:

– Nós sabemos que isto está sendo feito pelo menemismo para gerar conflito social antes das eleições. Em sua campanha, Menem tem manifestado que vai terminar com os delinqüentes e subversivos piqueteiros, levando o exército às ruas. O governador de Salta, Juan Carlos Romero, este personagem sinistro que é o candidato a vice-presidente de Carlos Menem, é o responsável pelas repressões que há dois anos assassinaram cinco piqueteiros em Gral Mosconi.

Um dos dirigentes do MTD de Florença Varela, Juan Cruz Dafunccio, que integrou a delegação, concedeu entrevista, neste sábado, ao secretário de Direitos Humanos, Oscar Fappiano, e a um assessor do ministro da Justiça, Juan José Alvarez, afirmando ao término destas entrevistas: “Advertimos que isto vai se transformar em uma questão de Estado, como acontece cada vez que se interdita a estrada em Mosconi. Colocar em prática a promessa eleitoral de Menem de ‘pacificar’ o país, acabando com a luta popular, mediante a repressão, longe de garantir a paz social, aprofundará a política de fome e repressão e encontrará, como inevitável resposta, uma luta popular cada vez mais contundente e massiva”.

O dirigente do MTD de Florencio Varela antecipou que, se não obtiverem a liberdade dos piqueteiros, farão atos contra a campanha eleitoral de Menem, tais como bloquear as estradas de acesso à Capital no dia do encerramento da campanha do ex-presidente.

Por sua parte, Carlos Menem encarregou para a campanha eleitoral uma propaganda que diz: “Com Menem vai haver ordem. Não haverá mais interdição de estradas e vias”. Tanto Menem, como o candidato da direita radical, Ricardo López Murphy, estão tentando capitalizar o descontentamento que provocam, nos setores médios, as permanentes interdições do trânsito, para buscarem o voto destas faixas da sociedade, prometendo mão dura com os piqueteiros. (Precisamente os mesmos candidatos que pediram que a Argentina condenasse Cuba pelas supostas violações dos direitos humanos, são os que se encarregam de prometer maiores repressões no país contra os quais se reclamam pelo direito ao trabalho).

A luta aberta pelo voto está nas ruas. À medida que se aproxima a data das eleições, intensificam-se os enfrentamentos entre os que querem “restabelecer a ordem neoliberal, a ferro e fogo”, e os que lutam por justiça social, por dignidade, por trabalho, e – participem ou não da contenda eleitoral – estão convencidos que da mesma não surgirá nenhuma solução para a crescente injustiça, exclusão e repressão, que é o que lhe toca no repartimento dos setores populares.

*Claudia Korol