Argentina rola a dívida para fugir da moratória

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Publicado sexta-feira, 12 de outubro de 2001 as 11:01, por: cdb

A Argentina deve anunciar na próxima semana um acordo com bancos e fundos de pensão para realizar uma troca de títulos da dívida de curto prazo por outros com prazo mais longo e taxa de juros menores. A estratégia integra um plano para reestruturar o endividamento de um país que alimenta temores de uma moratória. O negócio prevê ainda uma reprogramação da dívida das províncias argentinas, asfixiadas financeiramente após três anos sem crescimento da economia nacional.

A operação deve incluir bônus e empréstimos que somam entre US$ 14 bilhões e US$ 16 bilhões. O objetivo é reduzir em torno de sete pontos percentuais as altas taxas de juros que os títulos soberanos argentinos rendem nas mãos de bancos e fundos de pensão. Em seguida, o governo tende a lançar outras operações de reestruturação voluntária da dívida, para atingir investidores no exterior, sob organização do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos e do Fundo Monetário Internacional (FMI), que desembolsará US$ 3 bilhões para financiar a transação.

A falta de crescimento econômico, somada a uma dívida de US$ 132 bilhões que resulta em juros de US$ 10 bilhões ao ano, gerou neste ano medo de que um dos maiores emissores de títulos da dívida emergente entre em moratória. Diante desta perspectiva, o Tesouro americano e o FMI puseram mãos a obra para evitar que os problemas argentinos derrubem os países da região.

O Ministério da Economia chegou a um acordo preliminar com bancos para que aceitem trocar cerca de US$ 2 bilhões em bônus pagaré domésticos por outro título de vencimento em dez anos com uma taxa variável.

– Há uma discussão entre um setor da equipe econômica que queria uma taxa fixa para os bônus pagaré, mas vai ser uma taxa de pesquisa mais um spread (rendimento) ou sem spread – disse uma fonte do mercado próxima às negociações.

A taxa de pesquisa refere-se a uma média definida pelo Banco Central a partir de propostas formuladas pelas instituições financeiras. Uma fonte do governo que pediu anonimato confirmou que já está quase totalmente descartada a possibilidade de que a operação seja realizada com uma taxa fixa.

Ao mesmo tempo, os fundos de pensão – em sua maioria controlados por bancos – trocariam os US$ 3 bilhões que possuem em títulos que dão rendimentos superiores a 25%anuais, por outros bônus com prazo de dez anos e com taxa de juros estabelecida em no máximo 8%. Uma fonte de um fundo de pensão confirmou que está encaminhada a operação para trocar estes instrumentos.

Ajuda às províncias – O terceiro elemento da transação, e que inclui uma discussão política, é a renegociação dos empréstimos que os bancos locais deram às 24 províncias argentinas e que somam em torno de US$ 9 bilhões. A proposta ainda sem acabamento entre banqueiros e o governo federal pretende que os créditos refinanciados incluam a permissão às províncias de não pagar amortizações nos dois primeiros anos. Tal medida permitiria uma economia de US$ 300 milhões em taxas de juros somente neste ano.

Se tal reestruturação se efetivasse com as províncias, em sua maioria lideradas pela oposição, o governo central eliminaria o conflito com estes distritos, criado desde que tomou a decisão unilateral de reduzir os fundos transferidos mensalmente a partir da distribuição de impostos federais. A decisão foi tomada ante uma constante queda na arrecadação e com o intuito de não se colocar em risco o plano de déficit fiscal zero, instituído para recuperar a confiança dos investidores.