Arafat é a razão de ser de Sharon

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Publicado segunda-feira, 12 de agosto de 2002 as 10:59, por: cdb

Ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Ehoud Barak, membro influente do Partido trabalhista, historiador conhecido, Shlomo Ben Ami acaba de renunciar, com barulho, do Parlamento israelense. Na sua casa, ao norte de Tel-Aviv, ele falou nesta segunda-feira, num francês perfeito, a sua visão do futuro.

Porque demitem hoje do Knesset?

Sempre fui hostil à presença dos trabalhistas no governo Sharon. No início de maio, tinha prevenido Fouad (Ben Eliezer, líder trabalhista e ministro da Defesa de Sharon) que no fim do período parlamentar, em julho, renunciaria do Knesset se os trabalhistas continuassem ao governo. Fouad então tinha me prometido que não continuariam mais. Assim é mais coerente comigo mesmo e espero acelerar um processo inegável.

As eleições israelenses acontecerão mesmo em outubro de 2003, como previsto?

Nunca da vida. Certamente, ninguém sabe o que acontecerá quando os Estados Unidos atacarem o Iraque, se é que irão fazê-lo. Mas há grandes possibilidades de isso acontecer, de modo que os trabalhistas devem deixar o governo a partir de setembro. Se houvesse um voto secreto entre eles, uma maioria estaria em prol da retirada. Não há nada de positivo neste governo. E, caso saiam, Sharon poderá tentar fazer uma espécie de blitz, eleições muito rápidas.

De que acusam Sharon?

É a hegemonia da política sobre a estratégia. Neste país, um primeiro-ministro que permaneça refém da sua base política nunca chegará a alterar a situação. Ora, a única coisa que conta para Sharon, é não perder o apoio da direita, não deixar um espaço ao seu rival de direita, Netanyahou. a presença dos trabalhistas, para ele, não é o assunto principal. Sharon conhece a vaidade de Fouad e de Pérès. Fouad não se cansa olhar-se todas as manhãs no espelho dizendo-se: “sou o ministro da Defesa”, enquanto Pérès não termina viajar numa política estrangeira virtual.

Este governo não entendeu que não existe solução militar nem fórmula para combater o terrorismo, e que a resposta deve ser política. Sharon não chega a compreender que houve uma mudança regional importante. o processo político que deveríamos ter acordado com Barak e Clinton encalhou também devido à indiferença do mundo árabe. os Egípcios e os Sauditas viam Clinton como um presidente que estava de partida, mas que não deixava de ser eficaz. Com do 11 de Setembro, estes países compreenderam que a questão palestina podia desestabilizar o seu regime, e eles começam a se alterar. A iniciativa saudita é ilustrativa. Um primeiro-ministro responsável deve ver que há um novo panorama internacional e que é necessário utilizá-lo.

Sharon se beneficia, no entanto, do apoio dos israelenses?

É superficial. Este apoio vai essencialmente à Arafat. Não compreendo porque Sharon quer eliminá-lo. Arafat é a razão de ser de Sharon. É ele que lhe permite limpar todos os podres do governo. O ódio a Arafat é um consenso nacional, o que incentiva a indiferença e o fatalismo. Sharon pode fazer que quer. Ou seja retornar à 1992, antes dos acordos Oslo.

Arafat acabou, é finito?

Não vejo nenhuma possibilidade de negociar com ele. Não tem mais credibilidade em Israel. Não vejo um Dahlan ou um Rajoub (ex-chefes da segurança na Cisjordânia e Gaza) assumir grandes decisões históricas, como o direito ao regresso. Enquanto não houver entre nós um governo capaz de enfrentar os colonos e enquanto não houver nos Palestinos um que será capaz de enfrentar os extremistas, a situação continuará a ser bloqueada. A paz passa por um cataclisma interno, tanto neles quanto em nós.