Anistia adverte o Rio de Janeiro para possível “banho de sangue”

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Publicado quinta-feira, 7 de outubro de 2004 as 17:20, por: cdb

A guerra entre quadrilhas de traficantes de duas favelas cariocas pode levar a um “banho de sangue”, caso as autoridades não tomem medidas urgentes, alertou na quinta-feira a Anistia Internacional.

A advertência foi feita um dia depois de o chefe da PM do Estado do Rio, coronel Hudson de Aguiar, anunciar a troca de oito comandantes da corporação. A medida foi tomada em meio ao recrudescimento da violência nas favelas, arrastões e tiroteios na Zona Sul e assaltos contra turistas em Ipanema.

Em comunicado publicado no seu site, a Anistia advertiu sobre uma “inevitável” escalada na guerra entre as quadrilhas das favelas de Vigário Geral e Parada de Lucas, na Zona Norte.
A entidade, com sede em Londres, cobrou “medidas imediatas para restaurar a ordem” pois, do contrário, “muita gente inocente pode morrer”.

As quadrilhas de Vigário Geral e de Parada de Lucas disputam há mais de 20 anos o controle do tráfico de drogas na região, o que transforma a vida dos moradores em um inferno. A Anistia lembrou que no domingo um grupo de homens armados de Parada de Lucas ocupou Vigário Geral e expulsou dezenas de famílias, alegando que elas tinham vínculos com seus rivais.

– Apesar da sua presença na área vizinha, parece que a polícia do Rio não tem intenção de recuperar o controle das favelas de Vigário Geral ou Parada de Lucas, mesmo com a clara ameaça que essa situação representa para a população civil – disse a nota da Anistia.

– As razões para esta falta de ação não são claras.

Um porta-voz da Secretaria de Segurança Pública do Estado disse que a polícia está fazendo o possível, “não só para se impor aos delinquentes, mas também para garantir a integridade das pessoas que vivem ali”.

– A polícia vem fazendo incursões diárias, confiscando armas, e alguns traficantes de drogas foram mortos em confrontos com os policiais – acrescentou.

Nos últimos anos, o Rio vem registrando uma taxa de 40 homicídios por 100 mil habitantes ao ano, um dos piores índices do mundo. A polícia só entra nos morros mais perigosos em operações militares.

Aguiar disse na quarta-feira, ao anunciar as mudanças na PM, que o principal objetivo era obter resultados positivos no combate à violência.

Entre os comandantes substituídos está o do batalhão do Leblon, onde os assaltos, tiroteios e arrastões na praia levaram moradores a colocar cartazes irônicos, como “Atenção, perigo, zona livre para assaltos”, ou “Perigo, zona livre para arrastões”.

O Batalhão de Polícia Turística também terá um novo comandante.

A Anistia pediu às autoridades que “assegurem que qualquer esforço para restaurar a ordem seja realizado de forma que respeite a segurança e os direitos humanos da população civil”.

Grupos de direitos humanos dizem que as duras práticas da polícia só aumentam a violência geral no Rio, criando um círculo vicioso de mortes. No final de setembro, o chefe de operações especiais da Polícia Civil foi destituído, depois que o jornal O Dia publicou fotos de jovens suspeitos de ligação com o tráfico sendo rendidos e, depois, tendo seus cadáveres retirados em uma viatura.