Anatomia da corrupção

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Publicado sábado, 2 de junho de 2007 as 14:24, por: cdb

No Brasil, os escândalos têm uma função apaziguadora: tão logo um eclode, os outros perdem a atualidade e caem no esgoto do esquecimento. As revelações da Operação Navalha, da Polícia Federal, fazem esmaecer as falcatruas descobertas durante a Operação Hurricane. E nem se mencionem outras, como a Narciso, que desventrou a famosa Daslu. Os envolvidos nesses escândalos respiram aliviados. Espera-se, no entanto, que tão logo passe a fase aguda da investigação sobre a empresa Gautama, o Ministério Público e a Polícia Federal venham a aprofundar suas pesquisas sobre as falcatruas anteriores.

Há casos que começam a se tornar fósseis, como os da evasão de divisas pelo Banestado, calculadas em 30 bilhões de dólares, e os das privatizações. Como se recorda, a transferência ilegal de dinheiro pela ponte entre o Brasil e o Paraguai foi autorizada por uma portaria do Banco Central, de responsabilidade (assumida em depoimento ao Congresso) do Sr. Gustavo Franco, que presidia a instituição no governo do Sr. Fernando Henrique Cardoso. O Sr. Gustavo Franco continua impermeável como uma folha de inhame, e ainda se dá ao luxo de dar conselhos ao governo atual, como se noticiou. O enfant-gâté dos meios tucanos, fiel a seu ideário, recomendou reduzir ainda mais as alíquotas de importação, a fim de valorizar o dólar. Isso significa diminuir ainda mais os empregos no Brasil e criar mais empregos na China.

O Sr. Franco é um dos que saíram do governo para administrar grandes negócios, aqui e no estrangeiro. É interessante registrar que o Estado não paga bem a seus altos tecnocratas, segundo reclamações gerais – mas quase todos se enriquecem tão logo deixam a instituição. Recente livro do jornalista Luis Nassif, não contestado até agora, mostra como os autores do plano real criaram expedientes para seu enriquecimento rápido, mediante o Banco Matrix. Um dos exemplos disso: o Sr. André de Lara Resende, filho de um grande e honrado jornalista, que sempre viveu de seu trabalho, tornou-se multimilionário, e resolveu investir seu dinheiro na criação de cavalos na Inglaterra.

Não podemos, como dizem alguns, retornar ao tempo de Tomé de Souza, quando se inaugurou a corrupção no Brasil, com o provedor-mor Antonio Cardoso de Barros sendo acusado pelo governador-geral de desviar o dinheiro da Coroa para enriquecer-se com os engenhos de açúcar que montou. De qualquer forma, de acordo com a versão mais conhecida, Cardoso de Barros foi devorado pelos caetés, juntamente com o bispo Sardinha, quando voltava para Lisboa. Logo, pagou indiretamente por suas falcatruas. Mas, se não podemos retornar ao século XVI, nada nos impede de retornar, pelo menos, ao governo Collor e, de lá para cá, reexaminar todos os casos conhecidos. Muitos crimes já prescreveram, é certo, mas é importante que saibamos exatamente onde se encontra o dinheiro desviado e o que fazem, hoje, os ladrões.

Como ocorreram, realmente, as privatizações? Como foi possível a um grande banco privado participar da avaliação da Vale do Rio Doce e, em seguida, participar do consórcio comprador do controle acionário da mais importante empresa estatal brasileira? Ainda agora, com desplante, a empresa, privatizada, diz desconhecer o poder do Estado de intervir nos negócios da Vale, sempre que o interesse nacional exigir, negando, assim, valor à golden-share, garantia estabelecida no contrato de transferência das ações do Estado aos compradores. A Vale, vendida por pouco mais de 3 bilhões de reais, está obtendo hoje lucros superiores aos da própria Petrobrás. Se os membros do governo Fernando Henrique, envolvidos no programa de entrega, não lucraram diretamente com o negócio, houve, pelo menos, prodigalidade dos responsáveis. E a prodigalidade com dinheiro público é pior do que a própria corrupção, de acordo com a advertência de Richelieu em seu Testamento Político, porque a corrupção tem limites naturais, e a prodigalidade, não.