Amorim diz que estratégia na rodada de Doha não é errada

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Publicado quarta-feira, 30 de abril de 2003 as 23:47, por: cdb

O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, negou que o Brasil esteja usando uma estratégia errada ao insistir em avanços nos entendimentos relativos à agricultura nas negociações da Rodada de Doha de livre comércio.

Ele rebateu às críticas feitas na terça-feira pelo comissário europeu do comércio, Pascal Lamy, que acusou o Brasil de tornar o ritmo das negociações, previstas para terminar em 2005, totalmente dependente do setor agrícola.

O Brasil é acusado de estar deixando de lado nas discussões setores que interessam aos países ricos, como o de serviços. “Se não houver um avanço no tema da agricultura, a rodada não anda”, advertiu Amorim durante encontro com jornalistas brasileiros em Paris.

O ministro encerrou nesta quarta-feira uma visita de dois dias à capital francesa, onde participou de uma reunião ministerial da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).

Reunião

Além do Brasil, dez outros países não-membros da OCDE foram convidados ao encontro, que discutiu o andamento das negociações na Organização Mundial do Comércio (OMC), o crescimento econômico e os investimentos em países em desenvolvimento.

O chanceler brasileiro disse que percebeu, em uma reunião à tarde para debater especificamente a Rodada de Doha, o desejo “honesto” de procurar soluções para a questão agrícola.

Esse é o principal impasse para um acordo de liberalização comercial na OMC.

No final de março venceu o prazo para que os representantes dos 145 membros da organização definissem a modalidades de negociação na área agrícola, mas os países não conseguiram chegar a um acordo.

Segundo Amorim, as discussões agrícolas são um “exercício de paciência”. “Não temos ilusões de que haverá grandes mudanças antes da reforma da política agrícola européia. A partir de junho, a Europa tomará decisões importantes”, prevê o ministro.

Subsídios

Os países em desenvolvimento contestam principalmente os subsídios dados aos agricultores europeus, tanto em relação às exportações como para a produção interna, além das barreiras tarifárias.

Como não foi obtido um pré-acordo nesse setor até o final de março, vários negociadores começaram a questionar o sucesso da rodada de Doha e o próprio papel da OMC.

O representante americano para o comércio exterior, Robert Zoellick, havia chegado a afirmar que a OMC corria o risco de ir para o abismo.

Amorim disse que a reunião dessa tarde sobre as negociações na OMC “não se tratou de uma operação de salvamento da organização” e sim uma tentativa para avançar as discussões em áreas como agricultura, medicamentos genéricos e acesso aos mercados.

Cancún

Em setembro será realizada em Cancún, no México, uma conferência ministerial da OMC.

“Cancún não será Seattle”, disse Amorim, fazendo referência à reunião da OMC em 1999 nos Estados Unidos, que terminou em um fracasso nos entendimentos por uma maior liberalização dos mercados.

Ele afirmou ainda ter conversado hoje com Robert Zoellick sobre outros temas que o Brasil gostaria de incluir nas negociações, como flexibilidade em relação à área de tecnologia.

Alguns países têm excluído a possibilidade de colocar esses temas na agenda negociadora. “Zoellick indicou uma abertura nesse sentido”, disse Amorim.

Ordem de prioridades

Zoellick também disse nesta quarta-feira que a agricultura faz parte da lista de assuntos prioritários das negociações da OMC, comentário reiterado pelo comissário europeu do comércio, Pascal Lamy.

“O problema é que a ordem das prioridades está errada”, afirmou Amorim.

Além da reunião nesta tarde sobre a rodada de Doha, o ministro Amorim participou nesta terça-feira de um encontro, na Embaixada do México, com Zoellick, Lamy e representantes do comércio exterior do México, Índia e Egito.

Nesta quinta-feira, Amorim inicia em Johanesburgo, na África do Sul, uma viagem de oito dias por seis países do sul do continente.

Depois da África do