Amorim diz que Brasil pode dificultar negociações comerciais

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Publicado segunda-feira, 10 de março de 2003 as 15:46, por: cdb

O Brasil poderá dificultar as negociações para a criação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e do acordo entre o Mercosul e União Européia (UE) se Washington e Bruxelas continuarem colocando obstáculos para o andamento do processo de liberalização na Organização Mundial do Comércio (OMC).

A afirmação foi feita nesta segunda-feira pelo ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, que esteve em Genebra. Ele insinuou que o País pode endurecer suas posições nas negociações regionais para garantir que seus interesses sejam atendidos na OMC.

A avaliação do governo brasileiro é de que Estados Unidos e UE estão tornando as negociações da OMC mais difíceis ao impedirem que temas como a abertura agrícola e o acesso a remédios sejam solucionados.

No que se refere à liberalização do comércio agrícola, Bruxelas está fazendo de tudo para atrasar o processo, que deveria estar concluído em 2005. Já no tema referente ao acesso a remédios, são os Estados Unidos que impedem um acordo.

“A falta de avanço na OMC pode ter um impacto negativo na Alca e na negociação entre Mercosul e UE”, afirmou Amorim. Ele não explicou porém qual seria a estratégia usada pelo Brasil para mostrar sua insatisfação nas negociações regionais.

A declaração de Amorim representa uma mudança significativa na avaliação do Brasil sobre o processo de negociação em que está envolvido. Há pouco tempo, a idéia de Brasília era de que, se não houvesse avanço nas negociações em Genebra, o acesso aos mercados dos Estados Unidos e da UE aos produtos nacionais poderia ser obtido nos acordos regionais.

Mas hoje, com a evidência de que nem Washington nem Bruxelas irão tratar de temas como subsídios agrícolas nos blocos regionais, o Brasil quer garantir que o debate sobre as medidas que distorcem o comércio ocorra na OMC. “Nas negociações regionais, esses países dizem que não podem negociar a redução de subsídios. Mas no âmbito multilateral, o processo também não avança. Afinal, queremos saber onde é que o assunto será tratado”, disse o chanceler.

A resposta brasileira à inércia dos grandes países pode também ocorrer na própria OMC. Amorim não esconde que, se não houver avanços nas negociações de temas de interesse dos países em desenvolvimento, não haverá incentivos para que esses governos negociem os assuntos de interesse dos países ricos, como a liberalização do mercado de serviços.

O Itamaraty não descarta deixar de apresentar sua proposta de liberalização do setor de serviços, que deveria ser enviada à OMC até o final deste mês.

Decepção

Amorim ainda esteve reunido com os principais embaixadores na OMC. Depois de mais de duas horas de conversas, o chanceler afirmou estar decepcionado com o andamento da rodada de negociações, que foi lançada em 2001.

O ministro ainda criticou as declarações feitas pelo comissário de Agricultura da UE, Franz Fishler, que acusou a proposta de liberalização agrícola da OMC de favorecer exportadores, como o Brasil, em detrimento dos interesses dos países de menor desenvolvimento, como os africanos.