Alcoolismo aumenta entre indígenas de todo o país

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Publicado domingo, 20 de janeiro de 2008 as 13:13, por: cdb

O consumo de álcool é um fenômeno preocupante e crescente entre as populações indígenas do país. O diagnóstico é feito pelo gerente do Projeto Vigisus II da Fundação Nacional de Saúde (Funasa), Carlos Coloma, que também alerta: o problema é de de difícil solução. De acordo com ele, o combate ao alcoolismo, fenômeno que ocorre na grande maioria das etnias indígenas brasileiras, é uma das prioridades do projeto, que integra o Programa de Saúde Mental da Funasa. 

– Nós iniciamos as atividades para conhecer a realidade da saúde mental indígena a partir de 1999 – mais intensamente quando a Procuradoria Geral da República solicitou que a Funasa resolvesse os problemas de alcoolismo na população indígena no Rio Grande do Sul. A partir daí, foram feitas uma série de discussões para entender o problema. Chegamos a uma conclusão: não é possível fazer uma intervenção no alcoolismo nas populações indígenas sem entender o significado que o consumo de álcool tem para as diversas etnias. Qual a extensão do problema e a situação epidemiológica – afirmou Coloma.

O trabalho de combate ao alcoolismo se concentrou em sete dos 34 Distritos Sanitários Especiais Indígenas (Dseis) nos quais os índices eram mais preocupantes – Guarani (RS), Kaigang (PR), Pankararu (PE), Guarani Kaiowa e Nhandeva (MS), Tremembé (CE), Karajá e Javaé no região do Araguaia (TO, MT, GO), e Tikuna da região do Rio Alto Solimões (PA). Para diminuir os índices de consumo de álcool nas comunidades indígenas, o Projeto Vigisus programa intervenções orientadas pelos próprios indígenas.

– Em uma reunião com pajés no Rio Grande do Sul, ficou decidido que para ajudar os jovens se livrar do vício teriam que chamar alguns ‘mensageiros’. Esses ‘mensageiros’ trazem a palavra de um deus que se chama Ianderu que fala a toda a comunidade. Ele dá conselhos e fala do modo bom de viver. E nesse modo bom de viver não está incluído o álcool – afirmou.

Segundo Coloma, o acesso a bebidas alcoólicas é fácil em todas as aldeias do país, o que não difere muito das outras comunidades brasileiras. Contudo, nas cidades, existe uma oferta de álcool bastante diversificada.

– Temos cerveja, com baixa concentração alcoólica, de 5 a 6 graus, temos consumo de vinho e de outras bebidas fermentadas até 12 graus. Nas comunidades indígenas, o grande consumo é de bebidas destiladas, especialmente a cachaça – disse.

Para Coloma, o modo de beber é o diferencial mais marcante entre índios e a população em geral.

– Entre os indígenas, a ingestão é coletiva. Se há uma festa comunitária, todos têm que beber. Se há uma garrafa, duas, dez, mil garrafas, tudo tem que ser bebido – disse.

De acordo com ele, o Ministério da Saúde proibiu a venda de álcool líquido nas aldeias. Só é permitida a venda do álcool na forma de gel.

– Não resolveu o problema, pois eles usam o produto como se fosse uma geléia que se passa no pão – afirmou.

Outros fatores ainda contribuem para o alcoolismo indígena:

– Além do baixo custo, há também todo um contexto social de problemas que, sem dúvida, afetam a situação da sociedade indígena. A difícil solução de alguns deles, como a defesa de suas reservas, o contato com as sociedades externas faz com que os jovens comecem a consumir álcool.

Comona afirma que não há embasamento científico para argumentar que o alcoolismo entre os indígenas seja uma questão étnica.

– Não há como dizer que é uma propensão genética. O que se sabe é que certas etnias possuem dificuldades para metabolizar o álcool consumido. O processo seria mais demorado e por isso o efeito seria mais forte – afirmou.

Para o gerente da Funasa, o que deve interessar aos pesquisadores e técnicos de saúde indígena é o valor simbólico da bebida.

– Por que aí sim, temos como intervir. Independentemente de haver uma causa biológica, o importante é trabalhar com a causa simbólica por que o que a nós interessa é uma solução pa