Ajuda do FMI à Argentina foi apenas para adiar a crise

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Publicado segunda-feira, 27 de agosto de 2001 as 10:01, por: cdb

O pacote de socorro financeiro do FMI à Argentina, anunciado na terça-feira passada, foi apenas um remédio paliativo para o desfecho inevitável da crise: a reestruturação forçada da dívida após a declaração de uma moratória dos pagamentos. A opinião é de um dos republicanos mais respeitados pela equipe econômica da administração Bush, o professor de Finanças da Universidade de Columbia, Charles W. Calomiris.

“Esse pacote do FMI não foi elaborado para resolver o problema da Argentina. O seu único objetivo foi o de postergar o colapso financeiro do país por dois ou três meses”, disse Calomiris. “Simplesmente não era possível permitir que houvesse um colapso financeiro antes das eleições legislativas de outubro.” Ao liberar os US$ 5 bilhões de imediato para reforçar as reservas e evitar uma sangria maior dos depósitos bancários, a Argentina ganha tempo para preparar os termos de uma reestruturação forçada e compulsória da dívida. “Além disso, a economia dos Estados Unidos ainda está mostrando sinais de fraqueza. Um aprofundamento da crise na Argentina, e com conseqüências para o Brasil, poderia agravar uma depreciação do dólar no mercado internacional e reduzir o fluxo de capitais para a economia norte-americana”, explicou o acadêmico.

Ou seja, o “timing” não permite neste momento desligar a tomada da ajuda à Argentina. Apesar de negar ter informação ou contato próximo com o governo norte-americano ou com a equipe econômica argentina, Calomiris disse que as conversações para valer entre os EUA e a Argentina sobre como realizar a reestruturação compulsória sob o aspecto legal começaram há dois meses. “Essas conversações estão acontecendo, porém levará um pouco mais de tempo para que os envolvidos sintam-se confortáveis sobre como os procedimentos legais irão ocorrer”, disse.

Primeiras providências
Uma das primeiras providências a serem tomadas pelo governo argentino, segundo o professor Calomiris, será proteger os ativos do país no exterior de ações de credores na Justiça norte-americana ou na Europa, quando a moratória for declarada. “Em alguns casos, os argentinos terão até de repatriar alguns desses ativos”, disse. O segundo passo, prosseguiu o acadêmico, será a declaração de uma moratória nos pagamentos. A partir daí, o governo argentino terá de montar um comitê consultivo informal com os maiores credores da dívida. “Então, num processo de leilão, aceitará lances para a troca dos títulos até que eles atinjam um preço razoável e aceitável para a Argentina”, explicou.

A reestruturação da dívida demoraria até seis meses para ser concluída, a partir do momento que uma decisão para tanto fosse tomada. Para Calomiris, a Argentina só conseguirá prosseguir pagando suas obrigações com credores e retomar o crescimento se os investidores assumirem uma perda de 30% a 40% sobre um montante de US$ 90 bilhões (de uma dívida total de US$ 130 bilhões), que é o valor aproximado da dívida na forma de títulos e bônus soberanos.

Sobre a indicação de uma operação “voluntária” de troca da dívida, o professor disse que o texto do comunicado era a única coisa que o FMI poderia revelar neste momento. “Qualquer menção agora de uma reestruturação forçada iria causar pânico no mercado”, disse.

Calomiris também rebate veementemente as críticas de que o presidente George W. Bush e o secretário do Tesouro, Paul O´Neill, teriam mudado a postura mais rígida em relação a socorros financeiros a países emergentes em crise, distanciando-se da política mais intervencionista do ex-presidente Bill Clinton e eliminando o chamado “moral hazard” (risco moral) ao não mais resgatar os investidores em apuros. “As pessoas não entenderam as intenções dos EUA. Esse pacote não foi simplesmente um ´bail-out´ (resgate financeiro) ou um empréstimo novo cujo dinheiro será desperdiçado. Foi apenas para dar liquidez e permitir que o setor privado tenha sua participação numa solução definitiva, até porque terá de assumir perdas”, disse.

Fim de emprést