Acidente com bonde prejudica imagem do Rio, diz especialista

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Publicado segunda-feira, 29 de agosto de 2011 as 18:22, por: cdb

Getúlio ficou conhecido por réplicas do veículo (Foto: Sérgio Araujo Pereira/Creative Commons)

“É como se eu tivesse perdido um filho”, diz o artista de rua Getúlio Damado, ou “Getúlio do Bonde”, figura conhecida no bairro de Santa Teresa, região central do Rio, onde um bonde descarrilou no último sábado, matando cinco pessoas e feriu outras 57.

Mineiro radicado no Rio, Getúlio ficou conhecido por suas reproduções do bonde, símbolo de Santa Teresa. Seu ateliê é uma réplica praticamente em tamanho real do veículo, em uma calçada à beira dos trilhos.

O artesão produz suas peças a partir de restos de lixo que ele mesmo cata, enquanto passa o bonde de verdade, que serve de modelo para suas miniaturas.

Getúlio diz já ter presenciado vários acidentes com o bonde. “Já vi criança caindo, gente arranhada. Mas esse foi o pior de todos os tempos”, afirma.

No sábado, Getúlio diz que correu para a cena do acidente quando soube do ocorrido pouco depois das 17h.

O artesão diz ter visto pessoas sendo retiradas das ferragens, além de três corpos estendidos no chão.

A gente vem brigando, reclamando, há mais de 20 anos. Essas mortes são anunciadas.

Getúlio Damado, artista de rua

“Estou decepcionado. Meu coração está uma coisa gelada. Não consegui ficar nem dez minutos com isso fora da cabeça”, diz.

O artista começou a fazer réplicas de madeira do bonde há 26 anos, quando foi morar em Santa Teresa. Getúlio já expôs seus trabalhos na Suíça, na França e em São Paulo, onde tem peças na Galeria Estação, em Pinheiros.

“O meu nome se deu por causa do bonde”, diz ele, que também faz bonecos e esculturas com materiais reciclados.

Depois do acidente, o artesão pendurou uma placa declarando luto em seu “bonde-ateliê”, batizado de Família Bonzolândia. “Vamos à luta, que juntos nós venceremos”, diz a placa.

Manifestações

Getúlio pretende se unir às manifestações marcadas para a quinta-feira, dia em que o bonde completa 115 anos, para exigir segurança no uso do veículo.

“Em 26 anos no bairro, nunca vi uma época de tanto abandono na questão do transporte”, afirma.

“A gente vem brigando, reclamando, há mais de 20 anos. Essas mortes são anunciadas”, afirma.

Ateliê de Getúlio fica ao lado da linha do bonde (Foto: Sérgio Araujo Pereira/Creative Commons)

As causas do acidente estão sendo apuradas por técnicos do Conselho Regional de Engenharia e Arquitetura (Crea-RJ) e peritos do Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE), que devem apresentar um laudo em 15 dias.

Após análise dos destroços no domingo, um representante do Crea-RJ afirmou que uma falha nos freios pode ter causado o acidente. A superlotação também pode ter sido um fator para o acidente: o bonde tem capacidade para 40 pessoas, mas estaria com 61 na hora do ocorrido.

No domingo, o governador do Rio, Sérgio Cabral, emitiu nota lamentando o acidente e determinando que o transporte por bondes no bairro seja interrompido, além de um plano de modernização por parte da Secretaria de Transportes.

Temor pela paralisação

“Getúlio do Bonde” teme que a paralisação se prolongue e que não haja interesse em reativar o veículo, usado tanto por turistas quanto por moradores.

“O bonde é o coração de Santa Teresa”, diz. “Sem o bonde funcionando, Santa Teresa fica como um cemitério para nós.”

Tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural (Inepac) desde 1988, o bonde de Santa Teresa é administrado pela Companhia Estadual de Engenharia de Transportes e Logística (Central), empresa pública ligada à Secretaria estadual de Transportes.

Recentemente, outros acidentes ocorreram no uso de bondes no Rio. Em junho, um turista francês de 24 anos morreu depois de despencar de um bonde que passava sobre os arcos da Lapa, no centro.

Já em 2009, uma professora de 29 anos foi atropelada ao tentar saltar de um bonde que perdeu o freio e bateu em um táxi.